Seguro de Transporte: expansão do mercado e desafios de proteção

Criminalidade, normas da ANTT e apólices subdimensionadas colocam em xeque a maturidade da gestão de riscos no setor.

A CNseg projeta elevação de 6,6% no seguro de transporte de cargas em 2026. O índice indica um mercado vibrante. Porém, persistem fragilidades na visão que muitas empresas mantêm nesta proteção logística. Criminalidade alta e fiscalização digital rígida exigem prontidão. A apólice contratual gera prejuízo financeiro.

Segundo João Paulo de Oliveira Barbosa, CEO e fundador da Mundo Seguro, corretora especializada em seguros para o setor de transporte, a expansão do ramo não ocorre por acaso. “Há um aumento estrutural do risco logístico no Brasil. Roubo de cargas, acidentes em rodovias degradadas, eventos climáticos extremos e a maior concentração de valores por viagem elevaram significativamente o custo potencial da sinistralidade”, explica.

Normas da ANTT impulsionam a fiscalização. Dados unificados de RNTRC, MDF-e e seguros simplificam controle estatal. O calendário de 2026 dita novo ritmo setorial. “Existe um volume relevante de transportadores operando sem seguro. Nesse contexto, a ANTT passou a exigir a contratação dos seguros obrigatórios quando o transportador autônomo de cargas é contratado diretamente pelo embarcador”, pontua Barbosa. O desafio, segundo ele, está no fato de que muitas seguradoras ainda não estão plenamente estruturadas no atendimento de pessoas físicas, o que abre espaço a soluções específicas e expansão da base segurada.

Complexidade  e apólices defasadas

Apesar do crescimento projetado, ainda convivemos com apólices subdimensionadas. Limites insuficientes, franquias inadequadas e regras de gerenciamento de risco desalinhadas da operação seguem sendo problemas recorrentes.

De acordo com o executivo, o desafio está em lidar com ajustes de preço, sem priorizar investimentos em prevenção, tecnologia e adequação de coberturas. “O crescimento é real e bem fundamentado, mas só será sustentável se vier acompanhado de apólices conectadas à operação logística, gestão de risco ativa e maior integração entre seguro, regulação e transporte. Esse é o papel que corretoras especializadas vêm assumindo”, afirma.

Proteção integrada

A alta criminalidade, as ameaças digitais e as falhas operacionais estão forçando uma mudança estrutural na lógica de proteção do transporte de cargas. Logística, contratos securitários e compliance passam a caminhar de forma integrada. “Apólices mal ajustadas, lacunas de cobertura em etapas sensíveis como transbordos ou o descumprimento de exigências regulatórias não geram apenas prejuízos financeiros. Podem resultar em recusa de mercadorias, quebra de contratos e penalidades comerciais”, explica Barbosa.

Nesse novo modelo, o seguro deixa de ser um produto isolado e passa a sustentar a credibilidade do transportador e do exportador na cadeia logística, inclusive no cenário internacional.

Fiscalização digital e exposição real

Com a fiscalização digital, a simples existência de uma apólice não garante mais proteção. Os seguros precisam estar vigentes, corretos e compatíveis com a operação realizada. Para o mercado segurador, o movimento representa tanto um desafio quanto uma oportunidade: desenvolver produtos mais aderentes à realidade operacional e às exigências regulatórias.

Essa desconexão entre garantia e operação se revela em momentos difíceis. Diferenças entre o que é declarado na apólice e o que ocorre na estrada, além da terceirização mal enquadrada, criam zonas de risco justamente onde a exposição é maior. “Na teoria, o cliente tem seguro. Na prática, está subprotegido”, resume.

Leitura técnica como diferencial

Por fim, João Paulo destaca que não existe apólice eficaz sem leitura técnica da operação. “Nosso trabalho vai além da contratação. Conectamos operação logística, exigências regulatórias e gestão de riscos para que a proteção esteja alinhada à realidade do cliente antes que o problema aconteça”, concluiu.

Em 2026, o seguro de transporte cresce, mas também exige maturidade. Ignorar a complexidade do risco e tratar a proteção como burocracia pode comprometer o resultado financeiro e a própria continuidade do negócio.

Crédito foto:

Freepik

Crédito texto:

Fernanda Torres

Publicado por:

Picture of Helena Toniolo

Helena Toniolo