Lideranças despreparadas ampliam riscos psicossociais nas empresas

Nova NR-1 reposiciona a saúde mental como responsabilidade direta da gestão e da governança corporativa.
Jéssica Palin Martins, psicóloga e advogada especializada em saúde mental corporativa e sócia da consultoria Palin & Martins.

 

Transtornos mentais como ansiedade e depressão geram perdas superiores a US$ 1 trilhão por ano em produtividade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, o impacto aparece também na alta rotatividade: dados do Global Talent Trends Report, do LinkedIn em parceria com a PwC, mostram que 56% dos desligamentos no país são voluntários, frequentemente associados a esgotamento emocional e falhas na relação com a liderança.

Esse cenário ajuda a explicar a mudança promovida pela nova redação da Norma Regulamentadora nº 1. Ao incluir os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, a NR-1 desloca o debate da esfera individual para a forma como o trabalho é organizado, liderado e cobrado dentro das empresas.

Para Jéssica Palin Martins, psicóloga e advogada especializada em saúde mental corporativa e sócia da consultoria Palin & Martins, que atua com gestão estratégica e governança em diferentes setores da economia, a norma explicita algo que muitas organizações ainda evitavam assumir. “O risco psicossocial não surge apenas do indivíduo. Ele é consequência direta de estilos de liderança, processos mal definidos e ambientes que normalizam a sobrecarga”, afirma.

Na prática, entram nesse radar fatores como metas irreais, comunicação truncada, ausência de autonomia e modelos de gestão baseados apenas em controle. Esses elementos deixam de ser vistos apenas como problemas de clima e passam a integrar o mapa de riscos ocupacionais das empresas.

A mudança também expõe a limitação de treinamentos genéricos sobre bem-estar. Segundo a especialista, ações pontuais não atendem às exigências da NR-1. “Não basta falar de saúde mental de forma abstrata. A norma exige identificação de risco, monitoramento contínuo e plano de ação alinhado à realidade das equipes”, diz.

Outro ponto central é o uso de dados emocionais para orientar decisões de liderança. Estudos da Gallup indicam que profissionais emocionalmente engajados são até 59% menos propensos a buscar outro emprego. Para Palin, isso mostra que a prevenção do adoecimento também é uma estratégia de retenção e desempenho.

Soluções que transformam aspectos subjetivos em indicadores de gestão passaram a ganhar espaço nas empresas. É o caso da IntegraMente, plataforma criada para apoiar lideranças com diagnósticos psicológicos validados, devolutivas estratégicas e planos de ação estruturados. “Quando o gestor entende o funcionamento emocional da equipe, ele deixa de agir por tentativa e erro”, explica.

Jéssica alerta que a contratação desse tipo de serviço exige critério técnico. Metodologias sem validação científica ou sem devolutiva prática para a liderança tendem a não gerar impacto real nem atender às exigências regulatórias. “Saúde mental virou tema de governança. Improvisar pode gerar risco jurídico e reputacional”, alerta.

Antes de qualquer implementação, o primeiro passo é reconhecer que o risco psicossocial é responsabilidade direta da gestão, e não apenas do RH. A partir daí, a empresa precisa estruturar processos contínuos, integrados à sua lógica de governança e tomada de decisão. “Saúde emocional não é campanha interna nem ação isolada. É um sistema de gestão que precisa de dados, leitura estratégica e compromisso da liderança”, resume.

 

A especialista apresenta cinco cuidados estratégicos para lideranças diante da nova NR-1

Antes de listar as recomendações, especialistas destacam que a prevenção de riscos psicossociais depende de ações integradas entre liderança, RH e governança, com base em dados confiáveis.

 

1- Mapear riscos a partir da organização do trabalho

Identificar sobrecarga, conflitos de papel, falhas de comunicação e estilos de liderança que geram tensão emocional recorrente nas equipes.

 

2- Ir além de treinamentos genéricos

Capacitações amplas sobre bem-estar não substituem diagnósticos estruturados nem atendem às exigências do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

 

3- Usar dados emocionais para orientar decisões

Indicadores psicológicos ajudam a ajustar metas, reorganizar equipes e prevenir adoecimento antes que ele se traduza em afastamentos ou turnover.

 

4- Exigir metodologia validada ao contratar serviços

É essencial verificar se há instrumentos reconhecidos, devolutivas estratégicas e planos de ação mensuráveis para a liderança.

 

5- Integrar saúde mental à governança corporativa

Tratar o tema como parte da gestão de riscos reduz passivos, fortalece a conformidade legal e melhora o desempenho organizacional.

 

Ao tornar explícita a responsabilidade da liderança na gestão dos riscos psicossociais, a NR-1 inaugura uma nova fase para as empresas brasileiras. Mais do que cumprir uma exigência legal, adaptar-se à norma significa reconhecer que a forma de liderar impacta diretamente a saúde das pessoas, a sustentabilidade do negócio e a credibilidade da organização no longo prazo.

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