A vida é feita de histórias, vividas, construídas. Pobre de quem não tiver colecionado seus enredos para contar. À primeira vista parece um clichê. Pensava assim também, não é.
Não importa quantas vezes contamos ou relembramos passagens importantes da nossa história – pequenas histórias dentro de uma maior – sempre haverá um sentir diferente e sempre haverá um detalhe que não percebemos e que passa em branco, que nunca foi contado ou relembrado – o que descarta o clichê.
A maioria das nossas histórias, desimporta se quando contamos para outros ou recordamos, são, na verdade, contadas para nós mesmos porque além de gostarmos delas, invariavelmente, quase sempre somente nós conseguimos perceber que elas apresentam diferenças pequenas e novidades escondidas a cada vez que é recontada e não raras vezes nos surpreendemos com isso. E são repetidas porque aqueles detalhes minúsculos ou gigantes são descobertas que fizemos a cada novo contar e talvez seja isso que nos agrada em repetí-las.
Os mais atentos são os que percebem, vez que outra, estas pequenas e grandes novidades escondidas. O mais afoito dirá que: “olha você sempre inclui parte que não contou antes”. O sábio pensará: contou sim, eu é que não percebi. A parte escondida sempre esteve ali.
O maior contador de histórias que conheci e convivi não era um letrado e intelectual escritor do ramo do magistral Erico Veríssimo, mas um homem tão simples quanto exige a sabedoria, e esta não é nada complexa: Caburé.
Ícone do setor e um contador de histórias que nunca escreveu um livro, porque sua vida já era um, e nunca deixou que escrevessem porque suas histórias eram únicas “incontáveis”. Só ele sabia contar e tem coisas que não se ensina.
Mais de uma vez lhe foi oferecido quem tivesse talento para documentar sua existência e sua trajetória entre mil histórias próprias, ele nunca estava disposto. Certa vez perguntei para Adriana, sua filha: por que não está evoluindo o projeto do livro, ela respondeu:
– É que o artista é muito difícil.
Quem via nele um “poço” de vaidades não imaginaria teria tanta humildade para se esquivar da dita imortalidade. Era uma das novidades escondidas no seu existir.
Numa de nossas tantas andanças fomos em um grupo de quatro ou cinco amigos para Buenos Aires – acho que este grupo com modificação de um ou outro nome, viajou no mínimo três vezes para lá, destas a primeira foi a mais marcante.
A aventura começou no Aeroporto com Caburé relatando seus contos – literalmente sem parar.
Com seu jeito muito engraçado de narrativa, Caburé prendia a atenção, divertia, tocava, provocava risos mesmo na hora em que o choro e a dor estavam inseridos no contexto e exigia escuta respeitosa.
E assim foi a viagem inteira.
No retorno, alguns dias depois, todos cansados, exaustos, da jornada, ficamos jogados pelas poltronas do saguão de embarque, sonâmbulos, e o Caburé com a corda toda indo em um por um e provocando uma ou outra recordação em parábolas. Num instante ele para e reflete em pensamento alto: “no início todos querem saber as histórias do Caburé, no final ninguém quer mais saber delas, já sabem todas, enjoaram”.
Pronto, todos acordaram às gargalhadas.
Seguiu a viagem da vida.
Eu estou longe de ser sábio, mas o tempo de convivência me ensinou a perceber alguns dos pontos novos que apareciam nas recontagens e reedições do Caburé.
E eu sabia que ele sabia que eu percebia. Talvez não fosse o único a perceber, mas percebia. Ele imitava a arte de Hitchcok que aparecia, quase desapercebidamente em seus longas, e, tal qual todos ficavam esperando pelo momento da aparição, eu ficava esperando pelo aparecimento da sua novidade escondida. Era um divertido aprendizado.
Caburé nos deixou, a viagem da vida segue, as histórias não escritas ficaram no livro da prateleira da memória.
Com frequência me pego em releitura da minha própria vida encontrando estes pontos de novidades que o Caburé me ensinou a ter e que encontro nas minhas próprias narrativas que repito com frequência.
Adoro estas novidades escondidas.
Uma delas é que levei vários anos para perceber que muitas vezes confundia a data que comecei a advogar e montei o escritório que hoje se denomina CJosias & Ferrer Advogados Associados, cuja história já repeti tantas vezes que quem ouviu mais de uma enjoou. Ou não quis esperar a inovação encoberta.
Na maioria das vezes, por exemplo creditava o começo para o dia 23.08 de 1983, mas percebi que por vezes referia ser 21 e noutras 22.
Isto me incomodou um pouco. Hoje me alegra saber que era só uma novidade escondida a ser destapada.
Dia 21 recebi um bilhete do Júlio Cesar Rosa – traz estes processos e vem trabalhar aqui do lado da minha sala – dia 22 limpei minha mesa, separei meus pertences na Generali e dia 23 organizei meu pequeno escritório na sala ofertada.
Olhei para o Lago à minha frente do salão da companhia e pensei. Vamos ver onde isto vai parar.
Paramos aqui, 43 anos depois com um grupo de sócios, funcionários e advogados que tornaram realidade um sonho. Temos uma Escola, e graças a estes todos que estão seguindo a vida numa viagem conosco e que são verdadeiros professores. Me posto de volta ao começo, um aprendiz. Não é uma frase solta, não, é isto mesmo.
Não consigo enumerar a todos quanto sou grato, embora por diversas passagens da minha existência tenha feito as homenagens que reputei mínimas. Mas posso vê-los, todos, agora, também, em alguns nomes imediatos. Caburé, Júlio, meus filhos João Caetano, Matheus, Letícia, minha neta Rosa, minha esposa Anna.
Estou feliz pra cachorro (uma homenagem à minha Lhasa Apso Anita o pet mais lindo e querido do mundo).
Como sinto e vejo estes 43 anos: como “un diamante fino que alumbra mi alma serena”!
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