O que começa na infância pode transformar o futuro de uma sociedade

Investimentos qualificados nos primeiros anos estão associados a ganhos em escolaridade, renda, saúde e desenvolvimento social

O cuidado focado na primeira infância é mais do que uma necessidade pontual. Graças a um acompanhamento multidisciplinar unindo educação, nutrição, saúde, segurança, cultura e assistência social, há um alicerce estruturante na vida do indivíduo e para o futuro do país. Diante desse cenário, projetos direcionados aos primeiros anos ganham relevância, posicionando-se no centro da evolução social e da economia.

A dimensão do desafio brasileiro explica o debate. Segundo estudo do UNICEF baseado em dados nacionais, em 2023 aproximadamente 28,8 milhões de pessoas de 0 a 17, o equivalente a 55,9% dessa população, viviam em situação de pobreza multidimensional. Embora o número represente uma melhora em relação a 2017, quando eram 34,3 milhões, ou 62,5%, a realidade ainda expõe milhões de meninos e meninas a privações que ultrapassam a renda.

Ainda há viabilidade financeira de investimentos voltados ao ciclo inicial do desenvolvimento que assume uma expressiva proporção macroeconômica. Estudos associados ao economista James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontam que programas intensivos e de alta qualidade voltados aos primeiros anos podem apresentar retornos anuais de cerca de 13% sobre o valor aplicado, considerando efeitos sobre escolaridade, saúde, renda e outros resultados sociais. A evidência não significa que toda iniciativa alcance automaticamente esse patamar, mas reforça o potencial de intervenções precoces, qualificadas e bem executadas.

O efeito aparece também na prevenção de problemas futuros. Quanto maiores as condições de aprendizagem, cuidado e segurança durante essa fase, menores tendem a ser os obstáculos posteriores em áreas como permanência escolar, qualificação profissional e inserção social.

 

Diferentes frentes ampliam efeitos no longo prazo

Alimentação adequada, segurança, atendimento em saúde, suporte familiar e oportunidades de aprendizagem atuam de forma conjunta sobre a formação infantil. OMS, UNICEF e Banco Mundial reúnem esses elementos no conceito de nurturing care. No longo prazo, iniciativas estruturadas estão associadas a avanços na escolaridade, no bem-estar, nas habilidades socioemocionais e na inserção profissional, com reflexos que podem alcançar também a geração seguinte.

A combinação de frentes ajuda a explicar esses resultados. Alimentação garante condições físicas adequadas à aprendizagem; ensino desenvolve competências; cultura amplia repertório; esporte estimula disciplina e convivência; atendimento médico contribui com a prevenção; e o acompanhamento social permite identificar situações capazes de interromper esse processo.

Assim, o propósito vai além da permanência de uma criança em uma instituição específica. Está ligado às condições disponibilizadas durante o percurso, incluindo na elaboração de um projeto de vida.

 

Privações na Infância

As diferenças de oportunidades surgem muito cedo. Duas crianças que vivem no mesmo município podem apresentar condições completamente distintas de alimentação, moradia, estímulos cognitivos, acesso a livros, internet, consultas médicas, lazer e escola.

Dados reunidos pelo UNICEF mostram a extensão de algumas dessas privações. Em 2023, aproximadamente 19,5 milhões de crianças e adolescentes apresentavam privação relacionada ao saneamento; 5,8 milhões, à habitação; 4 milhões, à educação; 2,8 milhões, à água; 1,7 milhão, à informação; e cerca de 1,7 milhão estavam expostos ao trabalho infantil.

Igualdade de oportunidades não implica dar as mesmas circunstâncias para todos. Quando os pontos de partida são distintos, políticas e projetos sociais precisam considerar as desigualdades e fortalecer os fatores que favorecem uma trajetória mais estável.

Programas que reúnem alimentação, reforço escolar, esporte, cultura, atendimento psicológico, acompanhamento familiar e assistência social podem acrescentar novas possibilidades à formação.

Essa atuação também se relaciona à chamada transmissão intergeracional da pobreza. Maior permanência na escola pode ampliar as perspectivas de qualificação e trabalho; melhores condições profissionais podem elevar renda e autonomia; e essa mudança tende a influenciar também o ambiente em que a geração seguinte será criada.

 

Importante janela de aprendizagem

Embora os primeiros anos não determinem um destino imutável, essa fase representa um período especialmente relevante para a formação humana. Segundo referências da Organização Mundial da Saúde, UNICEF e Banco Mundial, mais de 80% da formação cerebral ocorre até aproximadamente os três anos.

É justamente nessa etapa que alimentação adequada, segurança, vínculo afetivo, comunicação, estímulos e experiências de aprendizagem exercem influência significativa sobre a aquisição de habilidades cognitivas e socioemocionais.

Atenção, linguagem, memória, autocontrole, resolução de problemas, cooperação, persistência e capacidade de adaptação estão entre as competências construídas ao longo desse processo. Muitas delas permanecem importantes durante a adolescência e a vida adulta, inclusive no ambiente profissional.

Dados do Banco Mundial indicam que cada ano adicional de escolaridade está associado, em média, a um aumento de aproximadamente 8% nos rendimentos futuros, embora os efeitos variem conforme o país, a qualidade do ensino e o contexto econômico.

O direcionamento de recursos nessa fase, portanto, não representa apenas a preparação de um bom aluno. Para André de Britto, diretor do Projeto Criança Cidadã e assistente social, a efetividade dessas iniciativas passa pela capacidade de acompanhar resultados concretos.

Por isso, instituições sociais exercem uma função que ultrapassa a oferta de atividades ou refeições. Professores, educadores sociais, psicólogos, assistentes sociais, profissionais da área médica e famílias podem formar uma rede de apoio capaz de identificar situações de risco com maior antecedência.

Os dados sobre violência ajudam a dimensionar esse desafio. Entre 2021 e 2023, foram registradas mais de 15 mil mortes violentas de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, além de aproximadamente 165 mil vítimas de violência sexual, segundo dados reunidos pelo UNICEF.

A desigualdade também aparece nesse cenário. Dos 15.101 registros de mortes violentas intencionais de pessoas de 0 a 19 anos no período, 91,6% das vítimas tinham entre 15 e 19 anos, 90% eram do sexo masculino e 82,9% eram negras. Em 2023, o risco de morte violenta entre adolescentes e jovens negros do sexo masculino foi 4,4 vezes maior do que entre brancos da mesma faixa etária e sexo.

Os números mostram que amparo e formação caminham juntos. Em muitos casos, uma oportunidade oferecida no momento adequado pode representar um fator decisivo na continuidade de uma trajetória.

 

Empresas e terceiro setor ampliam iniciativas

A complexidade dos desafios relacionados à infância também exige articulação entre diferentes setores. Governo, empresas, organizações sociais, universidades, famílias e comunidades possuem competências distintas que podem atuar de forma complementar.

Nesse modelo, uma parceria efetiva não se resume a uma transferência financeira pontual. Continuidade, metas, indicadores, governança e acompanhamento dos resultados ajudam a transformar o investimento social em estratégia de impacto.

“Uma boa parceria precisa responder a algumas perguntas objetivas: quantas crianças serão alcançadas? Qual é a situação inicial dessas crianças? Qual intervenção será realizada? Com qual frequência? Quais indicadores serão acompanhados? Que resultado se espera após seis meses, um ano ou cinco anos?”

Segundo André, o terceiro setor possui uma proximidade importante com as comunidades, enquanto as empresas podem acrescentar capacidade financeira, tecnológica e gerencial.

“Quando essas competências são combinadas com transparência e indicadores, deixamos de falar apenas de doação e passamos a falar de investimento social privado orientado a impacto.”

 

Brasil ainda enfrenta desafios de articulação

Apesar dos avanços institucionais, o país ainda enfrenta obstáculos relacionados à integração das políticas públicas e à continuidade das iniciativas voltadas ao público infantil.

Ensino, atendimento médico e assistência social frequentemente atuam de maneira separada, enquanto medidas de proteção podem surgir apenas quando as situações de vulnerabilidade já se agravaram.

“Precisamos avançar para um modelo efetivamente intersetorial, preventivo e territorializado, capaz de identificar precocemente as vulnerabilidades de cada criança e família”, afirma Britto.

A educação infantil também evidencia parte desse desafio. Em 2024, 39,7% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos frequentavam creches, ainda abaixo da meta de 50% prevista pelo Plano Nacional de Educação. Entre as de 4 e 5 anos, a frequência chegou a 93,5%, ainda sem alcançar a universalização prevista.

Para Britto, contudo, ampliar o acesso precisa vir acompanhado de qualidade, alimentação, atenção à saúde mental, desenvolvimento socioemocional, prevenção da violência, formação dos profissionais e participação das famílias. “Crianças não podem depender exclusivamente de projetos que começam em determinado ano e desaparecem no exercício seguinte.”

 

Investimento que ultrapassa os primeiros anos

A discussão também passa pela forma como a sociedade enxerga os recursos direcionados à infância. Para Britto, combater as consequências da desigualdade depois que elas aparecem costuma exigir mais recursos do que atuar sobre suas causas.

“Durante décadas, sociedades inteiras concentraram grandes volumes de recursos na tentativa de corrigir problemas quando eles já estavam instalados. A ciência do desenvolvimento humano aponta para uma estratégia mais eficiente: atuar antes.”

A experiência do Projeto Criança Cidadã, segundo ele, reforça a percepção de que os indicadores representam histórias individuais e possibilidades de futuro.

“Quando oferecemos proteção, educação, alimentação, saúde, cultura, esporte, acompanhamento e, principalmente, oportunidades, não estamos apenas atendendo uma necessidade imediata. Estamos alterando as probabilidades de futuro.”

Nesse sentido, os efeitos de uma política ou projeto voltado à primeira fase da vida não ficam restritos ao público atendido. Eles alcançaram famílias, comunidades e, posteriormente, o mercado de trabalho e a economia.

“O investimento realizado na infância não termina na criança. Ele alcança sua família, sua comunidade, o mercado de trabalho, a economia e, muitas vezes, a geração seguinte.”

Crédito foto:

Divulgação Projeto Criança Cidadã

Crédito texto:

Fernanda Torres

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