Seguro e transferência de riscos ajudam a destravar capital para a transição

Debate reúne CNseg, UNEP-FI, McKinsey, Marsh e IFC para discutir soluções capazes de tornar projetos climáticos mais financiáveis

“Queremos que o seguro seja considerado uma solução desde o início dos projetos para a transição climática, demostrando os riscos e como eles podem ser mitigados”, afirmou a diretora de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Claudia Prates, em sua participação no webinar “De-risking Brasil: instrumentos para financiamento da transição”, realizado em 30 de setembro, como parte da Jornada Blended Finance 2026.

Na ocasião, a diretora da CNseg afirmou que essa capacidade do setor segurador de mitigar riscos também contribui para a atração de capital para esses projetos. “Capital existe, mas precisamos de projetos bem estruturados”, afirmou, lembrando que o Brasil é um exemplo para o mundo pela forma como o setor financeiro trabalha junto para acelerar a transição climática.

O webinar é uma realização em conjunto da CNseg com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) e a Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep-Fi).

 

Novas estruturas de transferência de riscos buscam tornar o capital mais eficiente

O líder Regional de Finanças Climáticas para a América Latina e o Caribe na Unep Fi, Fernando Salazar, que conduziu o debate, apresentou o conceito de de-risking e sua importância para ampliar o fluxo de investimentos para projetos de transição climática. Segundo ele, esses mecanismos utilizam instrumentos financeiros para reduzir riscos relacionados aos projetos, tornando-os mais acessíveis aos investidores. A estratégia envolve três frentes: transferência, mitigação e compartilhamento de riscos, que podem transformar investimentos considerados de maior risco em oportunidades mais atrativas e escaláveis.

Na sequência, o gerente de Engajamento da McKinsey, Thomas Descamps, apresentou uma visão sobre a transferência de riscos como instrumento de otimização do balanço e do capital dos bancos. Segundo ele, mecanismos como a transferência significativa de riscos (SRT) permitem que as instituições financeiras transfiram a investidores parte relevante do risco de uma carteira e, quando atendidos os requisitos regulatórios, reduzam o capital necessário para suportar essas exposições.

Descamps destacou que o avanço da dívida privada vem ampliando as oportunidades para os bancos atuarem como originadores e conectarem suas carteiras de crédito a investidores institucionais. Ao mesmo tempo, ressaltou que ainda existem desafios para ampliar essas operações, como limitações de conhecimento técnico e de capacidade de execução, especialmente entre bancos de menor porte.

 

Seguro como instrumento de redução de riscos

Ao longo do encontro, representantes do mercado de seguros, financeiro e de desenvolvimento mostraram como instrumentos de transferência e compartilhamento de riscos podem reduzir incertezas, melhorar as condições de financiamento e ampliar a capacidade de investimentos em projetos relacionados à transição climática.

Para o diretor-executivo de Specialty da Marsh, Thiago Lang, o mercado de seguros pode atuar em diferentes etapas dos projetos, contribuindo para mitigar, transferir e compartilhar riscos. Essa atuação pode ajudar a ampliar o acesso a capital, destravar investimentos e atrair novos participantes para soluções relacionadas à natureza e à resiliência climática, especialmente no âmbito de operações de Project Finance.

O diretor de Infraestrutura e Construção da Marsh, André Dabus, destacou que a redução das incertezas é fundamental para tornar projetos de infraestrutura mais atrativos para investidores e financiadores. Segundo ele, cerca de 80% dos investimentos em infraestrutura no Brasil nos últimos dez anos foram privados. Nesse contexto, seguros e garantias contribuem para dar maior previsibilidade aos contratos e reduzir riscos associados a eventos climáticos extremos.

Dabus também defendeu que a infraestrutura seja concebida considerando os novos padrões climáticos. Segundo ele, a estratégia de “Build Back Better” propõe que a reconstrução após uma catástrofe incorpore padrões de resiliência capazes de reduzir perdas futuras. Ferramentas de inteligência artificial e modelos paramétricos também podem contribuir para essa adaptação.

 

Seguro de crédito de carbono

Um dos exemplos apresentados durante o webinar mostrou como o seguro pode ser utilizado diretamente para viabilizar o financiamento de projetos de transição. A gerente e Business Developer de Seguros de Linhas Financeiras da Marsh, Letícia Del Grandi, citou o exemplo de uma operação realizada nos Estados Unidos para a Chestnut, empresa de reflorestamento que tinha um acordo de compra de créditos de carbono com a Microsoft e precisava estruturar o financiamento junto ao JPMorgan.

O financiamento, de US$ 210 milhões, contou com uma apólice cujo limite segurado era inferior ao montante total da operação. A cobertura, com prazo de sete anos, protege contra riscos relacionados à não entrega dos créditos, à invalidação dos títulos e à reversão do carbono para a atmosfera em decorrência de desastres naturais.

A solução está sendo trazida ao mercado brasileiro pela Marsh, em parceria com a Akad Seguradora e a consultoria Polido e Carvalho. A estrutura foi adaptada à legislação brasileira, permitindo que eventuais sinistros sejam regulados e pagos no país.

Claudia Prates destacou o potencial brasileiro para projetos de reflorestamento e ressaltou que mitigar o risco relacionado à entrega dos créditos de carbono é fundamental para viabilizar novos investimentos. A diretora também informou que a CNseg desenvolveu uma cartilha sobre infraestrutura, detalhando seguros capazes de mitigar riscos climáticos e contribuir para projetos mais resilientes, material que poderá ser disponibilizado a bancos e ao mercado de capitais.

Letícia explicou ainda que o seguro de crédito de carbono pode ser aplicado a projetos de “Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation” (REDD) e “Carbon Capture and Storage” (CCS), além do reflorestamento. O custo da cobertura varia de acordo com o limite contratado e as características da operação, não sendo necessário, portanto, segurar a totalidade do financiamento.

 

Compartilhamento de riscos

Outro eixo do debate foi apresentado por Tomás Lo Prete, oficial de investimentos do International Finance Corporation (IFC), braço do Grupo Banco Mundial. Ele mostrou estruturas de compartilhamento e transferência de riscos que podem permitir aos bancos liberar capital e ampliar a oferta de financiamento para projetos com componentes sociais e ambientais.

Entre as alternativas apresentadas estão o “Risk Sharing Facility” (RSF) e o “Significant Risk Transfer” (SRT), que são operações com Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), e garantias com transferência da primeira perda para investidores terceiros, incluindo seguradoras, fundos de pensão e hedge funds. Essas estruturas podem ser utilizadas em segmentos como infraestrutura, agronegócio, pequenas e médias empresas, finanças verdes, clima e habitação social.

Segundo Lo Prete, a lógica é tornar o capital mais eficiente e permitir que os bancos reciclem recursos para novas operações. Em um exemplo citado durante o encontro, uma estrutura desse tipo poderia permitir que uma instituição duplicasse um financiamento, utilizando mecanismos de mitigação de riscos e compartilhamento de exposição.

O debate reforçou, assim, a importância de aproximar seguros, garantias, instituições financeiras e desenvolvedores desde a concepção dos projetos. Ao reduzir incertezas e criar mecanismos para compartilhar riscos, essas estruturas podem contribuir para tornar projetos de transição mais financiáveis e ampliar a participação do capital privado na agenda climática.

O próximo e último encontro da Jornada Blended Finance 2026 será realizado em 21 de outubro e terá como tema “Como atrair capital usando risco e retorno de investimentos para a transição”. Os interessados em participar, podem se inscrever clicando aqui.

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