Quando o clima vira rotina, o seguro precisa acompanhar

O que a Flórida ensina ao corretor brasileiro sobre o seguro da casa

Na madrugada de 21 de setembro, enquanto eu revisava este texto, mais um temporal atravessou o Rio Grande do Sul. Em Rio Grande, as rajadas chegaram a 113,7 km/h, casas perderam o telhado e perto de 900 mil consumidores ficaram sem luz no estado. Para quem mora no Sul, temporal forte já entrou no calendário.

Eu tinha voltado da Flórida poucos dias antes, intrigado com uma diferença. Lá, entre 80% e 85% dos proprietários têm seguro residencial. Aqui, segundo a CNseg, só 17% das residências estão protegidas.

 

Espaço para crescer

Em 2024, o mercado de homeowners da Flórida somou US$ 18,5 bilhões em prêmios. O residencial brasileiro inteiro arrecadou R$ 6,7 bilhões em 2025. Com as devidas ressalvas de câmbio e cobertura, um estado com um nono da nossa população sustenta um mercado mais de dez vezes maior.

No ticket, a distância aumenta. O prêmio médio na Flórida passa de US$ 3.000 por ano. Aqui, dividindo a arrecadação pelas cerca de 12,7 milhões de casas seguradas, chegamos a uns R$ 44 por mês. Lá, o seguro pesa no orçamento. Aqui, proteger a casa ainda custa pouco diante do que ela representa: o patrimônio de uma vida inteira.

Poucos seguros no Brasil têm tanto espaço para crescer.

 

Da assistência à proteção

Em muitos anos trabalhando com assistência, aprendi que o brasileiro chega ao seguro residencial pelo serviço. Chaveiro, eletricista, encanador. Foi um mérito do mercado, porque deu ao produto utilidade antes do sinistro. O passo seguinte é fazer o cliente conhecer também a proteção. Muita gente sabe quem chamar quando a torneira pinga e não sabe se tem cobertura para vendaval ou alagamento. Essas coberturas existem, e é justamente aí que a boa orientação faz diferença.

A Flórida mostra por quê. Depois do furacão Helene, 20% dos sinistros encerrados sem pagamento esbarraram na falta de cobertura para inundação, e outros 33% ficaram abaixo da franquia. Ter a cobertura certa importa tanto quanto ter seguro.

Aqui, a enchente de 2024 deixou a lição pelo outro lado. As seguradoras indenizaram cerca de R$ 6 bilhões no Rio Grande do Sul, R$ 594 milhões só no residencial, diante de perdas estimadas na casa dos R$ 100 bilhões. O seguro cumpriu seu papel onde existia. O que faltou foi alcance.

A oportunidade mora em dois endereços: a casa que ainda não tem seguro e a casa que pode estar mais bem protegida.

 

Cada casa é uma casa

Duas casas de mesmo valor podem ter exposições bem diferentes. Na Flórida, a idade do telhado e a proteção de portas e janelas entram no preço, e quem investe em prevenção paga menos. A seguradora quer saber quanto a casa vale e, principalmente, quanto ela aguenta.

O Sul tem tudo para liderar essa leitura mais fina no Brasil, cruzando dados climáticos com as características de cada imóvel. A tecnologia para isso já existe. O CEP continua importante, mas já não basta.

 

O papel do corretor

É aqui que o corretor faz diferença. Aquele cliente de auto que renova há anos sem pestanejar provavelmente tem a casa descoberta ou com uma proteção aquém do que precisa. A relação e a confiança já existem. Falta a conversa, e ela pode começar com cinco perguntas:

  1. Se a casa ficar inabitável, onde a família vai morar, e quem paga?
  2. O limite acompanha o custo de reconstruir hoje?
  3. Há cobertura para vendaval?
  4. E para a água que vem da rua?
  5. Depois da franquia, quanto do prejuízo fica com o cliente?

 

Há ainda a economia do próprio corretor. A R$ 44 por mês, o residencial virou acessório na carteira porque remunera como acessório. Uma apólice bem desenhada protege mais e remunera melhor. Proteger direito e ganhar direito andam juntos. E uma ligação antes da temporada de vendavais vale mais do que qualquer contato de renovação.

 

Infraestrutura de recuperação

Não precisamos copiar a Flórida, que convive com prêmios altos e uma exposição catastrófica que poucos mercados aguentariam. Mas dá para aprender com o jeito como a prevenção, lá, entra no preço. Na minha leitura, o próximo ciclo do residencial brasileiro vai ser liderado por quem souber explicar a proteção ao cliente e premiar quem se previne.

As assistências colocaram o seguro na rotina da casa. O desafio agora é garantir que a apólice esteja pronta para o dia em que essa rotina for interrompida.

Em Rio Grande, esse dia foi 21 de setembro. O clima virou rotina. O seguro da casa precisa acompanhar e ser tratado pelo que realmente é: infraestrutura de recuperação das famílias.

Crédito foto:

Filipe Tedesco

Crédito texto:

Nicolas Galvão

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