Seca e temporais no RS: quem paga a conta do produtor rural sem seguro?

Cindy Hoff, especialista do agronegócio na Pansera Corretora de Seguros, explica os impactos financeiros das perdas nas lavouras e destaca a importância da proteção securitária diante dos eventos climáticos

Diante da alternância entre secas severas e intempéries, o agricultor gaúcho enfrenta incertezas quanto ao desempenho da sua colheita. Os eventos meteorológicos adversos não apenas provocam severas perdas na lavoura, mas também impactam os recursos investidos, inviabilizam o cumprimento de obrigações financeiras e ameaçam a sustentabilidade do negócio no campo. Na ausência de uma proteção securitária, os desdobramentos tornam-se substancialmente mais graves, cabendo exclusivamente ao produtor absorver os impactos econômicos decorrentes dos prejuízos.

Segundo Cindy Hoff, especialista do agronegócio na Pansera Corretora de Seguros, a imprevisibilidade do clima representa um dos principais desafios enfrentados pelos agricultores do Rio Grande do Sul. Mesmo após meses de trabalho e investimentos, uma ocorrência pode comprometer a produção e gerar despesas que não estavam previstas.

“No Rio Grande do Sul, o produtor não sabe o que vai enfrentar durante a colheita. Caso seja diretamente afetado, acaba comprometendo o investimento que realizou na lavoura, além dos demais gastos que possui mensalmente. Com isso, acumula despesas e perdas financeiras”, explica.

Na ausência de uma proteção securitária, os desdobramentos são mais graves, cabendo exclusivamente ao produtor absorver os impactos econômicos decorrentes dos prejuízos, ainda que os investimentos tenham sido efetuados previamente ao evento meteorológico.

“Nesse caso, se ele não possui seguro, acaba arcando com os próprios prejuízos, pois investiu determinado valor e perdeu esse investimento. O prejuízo fica apenas com ele. Caso precise replantar ainda durante o período da lavoura, terá que assumir os custos novamente”, destaca Cindy.

Os efeitos financeiros de uma lavoura atingida pela seca ou por temporais não se limitam ao valor investido no plantio. Dependendo das condições econômicas do produtor, a redução ou perda da colheita pode dificultar o cumprimento de compromissos com bancos, fornecedores e demais despesas necessárias à manutenção da propriedade.

Para Cindy, a capacidade de recuperação depende diretamente da situação financeira de cada agricultor. Quem já trabalha com o orçamento apertado pode encontrar dificuldades ainda maiores diante da necessidade de iniciar um novo ciclo produtivo.

“Tudo depende da situação financeira do agricultor. Se ele já está com o orçamento baixo, isso prejudica a possibilidade de replantar a lavoura, arcar com financiamentos, fornecedores e as despesas que possui na propriedade. São custos que, somados à perda da produção, acabam pesando ainda mais no bolso”, analisa.

Nesse contexto, o seguro surge como um instrumento de apoio à recuperação financeira. Embora não impeça a ocorrência de fenômenos climáticos, a cobertura contratada pode contribuir para reduzir os impactos econômicos e oferecer condições de retomada da atividade, conforme os riscos e limites previstos na apólice.

“O seguro não impede que aconteça algum sinistro na lavoura, mas ajuda o produtor a replantar e a não precisar começar do zero depois da perda”, ressalta.

Apesar da exposição aos riscos climáticos, a contratação do seguro rural ainda encontra resistência entre alguns agricultores. Na avaliação da especialista, o preço está entre os fatores que influenciam essa decisão, especialmente quando a proteção é percebida como uma despesa adicional e não como parte do investimento na produção.

“O custo é um dos principais motivos, pois existem produtores que não entendem a importância de ter o seguro e contar com essa garantia quando precisam. Às vezes, não contratar representa um gasto a menos, mas, quando acontece alguma situação, eles acabam arcando com despesas maiores por não possuírem essa proteção”, observa.

A ausência de cobertura também pode levar o agricultor a buscar alternativas financeiras após uma perda. Entre as possibilidades estão a renegociação de compromissos bancários, a prorrogação de financiamentos e a solicitação de auxílio governamental.

Essas medidas podem oferecer algum alívio imediato, mas nem sempre resolvem a situação econômica da propriedade, especialmente quando envolvem a postergação de obrigações ou a contratação de novos recursos.

“O produtor, por vezes, precisa renegociar ou prorrogar financiamentos e dívidas com os bancos, além de solicitar auxílio do governo. Isso pode ajudá-lo, mas ele acaba assumindo mais dívidas”, explica Cindy.

A especialista destaca a necessidade de avaliar as características da atividade agrícola e os riscos aos quais a produção está exposta antes de definir a contratação.

“Nem todas as seguradoras oferecem as mesmas coberturas. Essas regras mudam de uma companhia para outra, pois pode existir uma cobertura específica em uma seguradora que outra não possui. Por isso, é importante avaliar corretamente os riscos cobertos, o valor da cobertura e como funciona em caso de sinistro”, orienta.

Para Cindy, compreender as condições da apólice é essencial para evitar que o agricultor descubra limitações da proteção somente após enfrentar uma perda. Diante das incertezas climáticas que fazem parte da rotina no campo, a proteção financeira ganha relevância na gestão dos riscos da atividade rural. Mais do que uma decisão relacionada ao custo da apólice, a contratação exige avaliar o que está em jogo caso a produção seja comprometida: os recursos investidos, os compromissos assumidos e a capacidade de dar continuidade ao trabalho na propriedade.

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Fernanda Torres

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