A filantropia premiável tem ampliado sua presença no mercado brasileiro ao unir sorteios, títulos de capitalização e apoio a causas sociais. O modelo, que permite ao consumidor participar de premiações enquanto contribui com entidades beneficentes, tem relevância no processo de arrecadação do terceiro setor e também das sociedades de capitalização. Ainda assim, o segmento vive um momento de debate regulatório e busca segurança jurídica em seu crescimento.
O empresário Luiz Osorio Silveira, da UNNEX, destaca que a principal força da modalidade está na capacidade de transformar doações esporádicas em uma fonte contínua de recursos a instituições sociais.
“A filantropia premiável responde a um desafio histórico do terceiro setor: transformar a solidariedade, muitas vezes pontual, em uma fonte recorrente e escalável de recursos. O consumidor participa dos sorteios e, ao mesmo tempo, contribui para a continuidade do trabalho de uma entidade beneficente“, afirma.
Segundo ele, o avanço do modelo resulta da combinação entre valores acessíveis, facilidade de aquisição, possibilidade de premiação e identificação do público com causas sociais. A digitalização dos canais de distribuição, a profissionalização das entidades e a estrutura regulatória das sociedades de capitalização também impulsionaram essa evolução.
Impacto após mudanças na publicidade
Embora o setor tenha registrado crescimento nos últimos anos, o segmento de filantropia premiável sofreu retração em 2026. Luiz Osório atribui parte desse cenário às mudanças nas regras de comunicação estabelecidas pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).
“O entendimento do mercado é que a restrição ao uso de imagens ilustrativas nas campanhas reduziu significativamente o poder de comunicação dos produtos. Isso afetou diretamente o interesse do consumidor e, consequentemente, o suporte destinado às entidades beneficentes“, observa.
Segundo dados divulgados pela FenaCap, o setor movimentou R$ 33,95 bilhões em 2025, com crescimento de 5,97% em relação ao ano anterior. O resultado se refere ao conjunto das modalidades, mas demonstra a capacidade de alcance e mobilização da capitalização no país, presente no Brasil há 97 anos.

A proteção anda junto com segurança jurídica e estabilidade regulatória. “A transparência, a fiscalização e as informações claras são fundamentais. Mas restrições sem previsão normativa acabam enfraquecendo operações legais e diminuindo os recursos destinados à assistência“, ressalta.
Solidariedade aliada ao entretenimento
Na prática, o modelo combina três elementos que se reforçam mutuamente: entretenimento, responsabilidade social e arrecadação.
“O sorteio desperta expectativa e engajamento. À causa social dá propósito à participação. E a estrutura da capitalização oferece segurança jurídica, regras definidas e controles financeiros“, explica Luiz Osório.
Ele destaca que a modalidade possui regras específicas. Ao adquirir um título de capitalização, o consumidor participa dos sorteios previstos e pode ceder à entidade beneficente o direito de resgate do saldo capitalizado.
“É essa cessão que transforma a participação individual em apoio financeiro à instituição. Não se trata apenas da possibilidade de ganhar um prêmio, mas de utilizar um instrumento regulamentado para gerar recursos permanentes para projetos sociais“, afirma.
Propósito e transparência
A mudança no comportamento do consumidor também favorece esse modelo. Segundo Luiz Osório, o público passou a valorizar produtos que geram impacto social concreto.
“A possibilidade de premiação pode despertar o interesse inicial, mas a causa social amplia o significado da participação. Quando o consumidor conhece a entidade e acompanha os resultados, deixa de ser apenas comprador de um título e passa a se enxergar como apoiador daquela transformação“, comenta.
Na avaliação do executivo, esse novo perfil exige transparência durante toda a operação. “O consumidor quer saber qual entidade será beneficiada, quanto efetivamente chega até ela, como os recursos são utilizados e quais resultados foram alcançados. O impacto deixou de ser apenas um discurso e passou a influenciar confiança e reputação“, destaca.
Para manter a confiança do público é necessário o envolvimento de todos os participantes da operação: sociedades de capitalização, entidades beneficentes, distribuidores e parceiros comerciais.
Entre os critérios essenciais estão histórico institucional, governança, prestação de contas, auditorias independentes, rastreabilidade dos recursos, divulgação dos contemplados e indicadores objetivos de impacto social.
Projeto Criança Cidadã demonstra potencial
Um dos exemplos citados por Luiz Osório é o Projeto Criança Cidadã, que atende atualmente mais de 1.600 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
Segundo ele, os recursos provenientes das operações de filantropia premiável contribuíram para ampliar os atendimentos, abrir novas unidades e viabilizar a construção da nova sede da instituição, em Campo Bom (RS).
“O Projeto demonstra que a filantropia premiável pode deixar de ser apenas uma campanha de arrecadação e se tornar um verdadeiro instrumento de desenvolvimento social“, afirma.
A UNNEX pretende ampliar essa estratégia ao incorporar o apoio ao Projeto Criança Cidadã em seu próprio modelo de negócios. “A proposta é fazer com que seguros, assistências, benefícios, telemedicina, educação e outras soluções também gerem uma contribuição recorrente para a entidade. Dessa forma, o apoio social não fica restrito a uma campanha específica: passa a integrar o próprio modelo de relacionamento e geração de valor da UNNEX”, explica.
A nova etapa foca na ampliação do engajamento de empresas, distribuidores, influenciadores, corretores e consumidores. Diversas companhias ainda restringem a filantropia a repasses pontuais, ignorando o potencial dessa prática na estratégia corporativa com responsabilidade e transparência.
O gestor reitera a necessidade da intensificação na fiscalização contra sorteios clandestinos, advogando por uma regulamentação equânime que assegure a estabilidade e a ética. “Precisamos compreender que o impacto social não pode ser apenas um argumento de venda. Ele precisa fazer parte da arquitetura do negócio, com compromissos claros, recursos rastreáveis, prestação de contas e resultados mensuráveis“, conclui.
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