No primeiro sábado de atividades, nenhuma criança apareceu. Dezessete anos depois, o Projeto Criança Cidadã mantém 11 bases no Brasil e no exterior, recebe crianças encaminhadas por escolas e órgãos públicos e enfrenta uma fila com mais de 100 pedidos de ingresso.
A trajetória da instituição foi apresentada por seus cofundadores, Márcia de Britto e André de Britto, em entrevista conduzida por Júlia Senna, editora-chefe do JRS, no Seguro Sem Mistério. A conversa foi gravada nos estúdios do JRS Comunicação, em Porto Alegre.
O episódio percorre uma história que começou com atividades voluntárias em uma garagem emprestada, atravessou períodos em que faltava dinheiro até para alimentação e aluguel e chegou a uma operação profissionalizada, com equipe técnica, atendimento psicológico e unidades espalhadas pelo Brasil, pela África e pela Índia.
“Há 17 anos, o projeto vem transformando a vida das crianças, das famílias e de todas as pessoas que estão ao redor”, resumiu Márcia.
O começo em uma garagem emprestada
O Projeto Criança Cidadã começou em 2009, a partir da experiência de Márcia e André no movimento escoteiro. Ao conviverem com a realidade das comunidades, perceberam que muitas crianças permaneciam sozinhas e sem atividades no período em que não estavam na escola.
O casal decidiu oferecer tardes de recreação aos sábados. As atividades eram realizadas em uma garagem emprestada pela comunidade, enquanto os lanches e materiais eram pagos com o próprio salário dos fundadores.
No primeiro encontro, apesar dos cartazes e convites distribuídos pelo bairro, nenhuma criança compareceu. Aos poucos, porém, as famílias começaram a conhecer e confiar no trabalho.
A comunidade também passou a colaborar. Uma doação de dez violões atraiu um voluntário disposto a ensinar música. Depois vieram aulas de guitarra, teclado, dança e teatro, além de brincadeiras e momentos dedicados a ouvir as crianças.
“O início de uma instituição exige tempo para conquistar confiança. Foi um processo difícil, mas que nos levou a estudar, buscar qualificação e entender que não bastava apenas abrir a porta de casa”, recordou André.
Um pedido por comida mudou o tamanho do compromisso
A transformação do projeto começou quando um menino chegou às atividades perto das quatro horas da tarde e contou que ainda não havia comido naquele dia.
O episódio mostrou que uma programação recreativa aos sábados não seria suficiente para responder às vulnerabilidades enfrentadas pelas crianças.
Em 2010, Márcia e André alugaram uma casa maior e passaram a morar no mesmo imóvel. A maior parte do espaço foi destinada ao projeto, que começou a receber crianças no turno inverso ao da escola durante todos os dias da semana.
O atendimento gratuito transformou-se em uma rede de apoio para mães que trabalhavam e não tinham com quem deixar os filhos.
“A gente percebeu que precisava fazer mais. Muitas famílias não possuíam qualquer rede de apoio e não tinham condições de pagar por um espaço para as crianças”, explicou André.
Essa realidade permanece atual. Em 2026, o Projeto Criança Cidadã ainda recebe mães e responsáveis que vivem sozinhos com os filhos e dependem da instituição para trabalhar com mais tranquilidade.
Sacolas de moedas, brechós e refeições solidárias
A expansão aconteceu muito antes de existir estabilidade financeira. André deixou o emprego para buscar recursos, enquanto Márcia dividia seu tempo entre o trabalho, a família e o atendimento às crianças.
A primeira campanha de contribuição solicitava doações de R$ 5. O casal também promovia brechós, pedágios, carreteiros e buffets de cachorro-quente. Pães, cucas e bolachas eram vendidos em uma mesa na calçada para ajudar a pagar as despesas.
Em alguns meses, o aluguel era quitado com sacolas cheias de moedas arrecadadas nas ações.
André também buscava alimentos na Ceasa, em Porto Alegre. As mães ajudavam a selecionar frutas e verduras que ainda poderiam ser aproveitadas, congelando parte dos alimentos para as refeições da semana e levando pequenas porções para casa.
Em 2011, o projeto chegou a atender 110 crianças em um espaço formado por uma casa antiga e um galpão de madeira. O imóvel precisou passar por reformas para atender às exigências da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros.
Mudança obrigou o projeto a recomeçar
Com o passar do tempo, a precariedade do prédio tornou sua utilização inviável. No final de 2015, o Projeto Criança Cidadã recebeu a concessão de uso de um imóvel municipal localizado do outro lado de Campo Bom.
A transferência preservou a continuidade da instituição, mas provocou uma ruptura dolorosa. Por causa da distância e das dificuldades de transporte, o número de crianças acompanhadas caiu de 110 para apenas 20.
“Parecia que o projeto estava começando novamente. Muitas crianças e famílias ficaram para trás, mas não tínhamos outra alternativa”, contou Márcia.
A instituição permaneceu durante dez anos no espaço cedido pelo município. Nesse período, conquistou certificações, ampliou sua estrutura de atendimento e continuou trabalhando pelo sonho de possuir uma sede própria.
Hoje, o Projeto Criança Cidadã está novamente mais próximo da região onde iniciou sua trajetória e recebe encaminhamentos de escolas, Conselho Tutelar, Ministério Público, serviços de saúde e assistência social.
Criança, família e escola precisam caminhar juntas
O atendimento contempla crianças e adolescentes a partir dos seis anos. A instituição evita estabelecer uma data automática para desligamento, pois entende que a continuidade do vínculo pode ser importante para o desenvolvimento de cada participante.
O trabalho não se limita às atividades oferecidas dentro do projeto. As famílias também precisam participar das reuniões, acompanhar os encaminhamentos e comparecer aos atendimentos indicados pela equipe técnica.
“O projeto é um complemento da família e da escola. Se uma dessas partes não estiver presente, o trabalho não consegue produzir o mesmo resultado”, explicou André.
Mensalmente, a instituição promove a Escola da Família, com orientações sobre diálogo, convivência, afeto, limites e desenvolvimento infantil.
O projeto atende ainda crianças neurodivergentes e busca mantê-las integradas às demais atividades. Para isso, professores, colaboradores e equipes técnicas passam por capacitações destinadas a melhorar o acolhimento e a convivência.
O resultado aparece quando a criança leva a mudança para casa
Para Márcia, os primeiros sinais de transformação surgiram quando as mães começaram a relatar mudanças no comportamento dos filhos.
As crianças passaram a demonstrar mais respeito, gentileza e disposição para colaborar em casa. Em alguns casos, a mudança dos jovens incentivou os próprios adultos a reverem comportamentos e fortalecerem os vínculos familiares.
“O que ensinamos às crianças também é levado aos pais. Trabalhamos princípios, valores e a compreensão de que a pessoa que está ao nosso lado é importante”, destacou.
Entre os participantes estão crianças e adolescentes de seis a 15 anos. Os mais velhos são estimulados a estudar, buscar uma profissão e imaginar como poderão utilizar seus conhecimentos para ajudar outras pessoas.
Alguns já fizeram esse caminho. Ex-participantes retornaram como professores, enquanto outros ingressaram no mercado de trabalho e mantiveram o vínculo com a instituição.
Uma jovem atendida pelo projeto decidiu doar integralmente seu primeiro salário. Outra participante, acolhida ainda criança, construiu uma carreira profissional, formou sua família e conquistou seu próprio imóvel.
Para os fundadores, essas histórias mostram que a instituição não determina o futuro de ninguém. Ela oferece apoio, direção e oportunidades para que cada pessoa construa o próprio caminho.
Filantropia premiável marcou uma nova fase
Durante muitos anos, praticamente toda a energia dos fundadores era dividida entre atender as crianças e arrecadar dinheiro para manter a instituição aberta.
A entrada na filantropia premiável representou um divisor de águas. Para participar do modelo, o projeto passou por aproximadamente dois anos de adequações e busca de documentos e certificações, incluindo o CEBAS.
Com uma fonte mais previsível de recursos, a instituição conseguiu planejar suas ações, contratar profissionais, oferecer treinamentos e diminuir a dependência exclusiva de campanhas pontuais.
“A filantropia permitiu que a gente passasse a cuidar mais das crianças. Antes, precisávamos interromper o atendimento para vender cartões, organizar promoções e correr atrás do aluguel”, explicou André.
O financiamento também possibilitou melhorar a alimentação. Doações costumavam se concentrar em produtos básicos, enquanto carnes, leite, ovos e outros alimentos precisavam ser adquiridos pela própria instituição.
Fazer o bem também exige gestão profissional
A ampliação dos recursos trouxe uma nova responsabilidade: profissionalizar a gestão sem perder a essência do acolhimento.
Atualmente, o Projeto Criança Cidadã investe em equipes técnicas, psicologia, serviço social, formação dos colaboradores e acompanhamento da saúde emocional de quem trabalha diariamente com situações de vulnerabilidade.
Uma vez por mês, os profissionais participam de encontros de capacitação e cuidado. As ações envolvem treinamentos, conversas sobre desempenho, apoio psicológico e atividades voltadas ao bem-estar físico e emocional.
“Quem trabalha com as crianças também sente o peso das histórias. A pessoa da cozinha, da limpeza, o professor e o motorista conhecem a realidade de quem chega. Eles também precisam ser cuidados”, observou Márcia.
O modelo não abandona o voluntariado, mas reconhece seus limites. Como as unidades funcionam em horários regulares e exigem continuidade, a contratação de profissionais qualificados tornou-se indispensável.
Da sede de Campo Bom para outras regiões e países
O primeiro movimento de expansão aconteceu quando um parceiro de Vitória da Conquista, na Bahia, conheceu o trabalho e demonstrou interesse em replicar sua metodologia.
A partir daí, novas oportunidades surgiram. Pessoas que já desenvolviam iniciativas sociais ou possuíam espaços sem utilização passaram a procurar o projeto.
A instituição adotou um modelo de filiais para manter o acompanhamento administrativo, financeiro e pedagógico das unidades. A profissionalização incluiu estruturas contábeis e jurídicas capazes de dar suporte à expansão.
Hoje, são 11 bases distribuídas pelo Brasil e também em países da África e na Índia.
Em uma das comunidades africanas visitadas pelos fundadores, as crianças estudavam ao ar livre. A urgência era tão grande que o Projeto Criança Cidadã construiu quatro prédios no local antes mesmo de concluir sua própria sede em Campo Bom.
“Não tínhamos a nossa sede, mas aquelas crianças também não tinham alimentação, calçados ou um prédio para estudar. A necessidade delas não podia esperar”, recordou André.

A história que ficou conhecida como “o milagre da mortadela”
Entre tantas lembranças, uma passagem de 2011 permanece como símbolo da fase mais difícil.
Durante vários dias, o lanche disponível era apenas pão com margarina. Uma criança perguntou se não havia algo diferente para acompanhar. Márcia explicou que aquele era o alimento disponível e perguntou o que ela gostaria de comer.
A resposta foi simples: mortadela.
As crianças deram as mãos e fizeram uma oração. No dia seguinte, um homem apareceu, deixou uma caixa no muro e foi embora. Dentro estavam farinha, suco de limão e duas mortadelas.
A história é preservada pelos fundadores para lembrar às novas gerações de onde o projeto saiu e quantas pessoas contribuíram para sua continuidade.
“O passado não pode desaparecer da nossa vida. Precisamos manter a gratidão a Deus e a todos que confiaram, ajudaram e deram credibilidade ao projeto”, ressaltou Márcia.
Um convite para conhecer antes de julgar
Durante o episódio, Júlia Senna convidou os cofundadores a participarem da 6ª Maratona da Inovação em Seguros, marcada para 29 de outubro. A proposta é ampliar a visibilidade da iniciativa e aproximá-la ainda mais do mercado segurador.
O Projeto Criança Cidadã também prepara novidades para 2026, entre elas o lançamento de livros relacionados à trajetória da instituição.
Ao final da entrevista, André deixou um convite para que as pessoas conheçam pessoalmente as organizações sociais antes de formar uma opinião sobre o trabalho desenvolvido.
“Visite, conheça e veja o que está sendo feito. Se puder, estenda a mão e faça diferença na vida de alguém ou de uma criança”, concluiu.
O Projeto Criança Cidadã começou sem público, sem estrutura própria e sem qualquer garantia de continuidade. Dezessete anos depois, mantém 11 bases e ainda enfrenta uma fila de famílias em busca de atendimento.
O tamanho dessa espera mostra que a instituição cresceu. Também revela que a missão está longe de terminar.
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