Aprendi cedo a conviver com perdas de amigos muito amigos. Aprender não significa, necessariamente, entender, tampouco se conformar. Também aprendi que a vida é um morrer lentamente. A cada próximo que parte, é um pedaço da gente que morre, que vai embora. Morremos aos pouquinhos.
Chegará um dia em que quem irá partir seremos nós e, tomara, na minha vez, eu deixe em alguns este mesmo sentimento: o de que levamos um pedaço deles junto e trocamos por um pedaço nosso que fica. Feliz daquele que deixa esta vida levando pedaços de quem gostou ou de quem lhe queria bem e deixa os seus próprios em outros que ficam. Quem parte e não leva nada disso passou por aqui e nada deixou; nada levará quando for embora quem não soube viver direito.
Não sei exatamente qual o mistério da vida, mas convicto estou de que viver é, lentamente, também ir deixando alguma coisa que fique com outros quando formos embora, por mais breve que seja a passagem, apesar de, neste universo de bilhões de anos, não se ter noção exata do que é longo ou do que é breve.
Por isso, acho também, convictamente, que está nisso um dos grandes segredos da vida eterna: o legado nas lembranças.
Era menino, talvez tivesse uns quatro anos, quando soube da morte de uma amiguinha que sentava ao meu lado, a Olga, coleguinha de pré-colégio ou algo do tipo. Nunca soube ao certo do que veio a falecer; sequer lembro do seu sobrenome, de quem eram seu pai ou sua mãe. Mas era uma coleguinha que eu via todos os dias, e aquela perda me causou uma profunda dor e um sentimento imenso de impotência. Nunca esqueci o rosto dela.
Foi a primeira perda de que me lembro. Muitas outras tive ao longo destes anos. Todas me causaram esta mesma sensação que tive com a ida da Olga: de perplexa incapacidade. Nenhuma dessas perdas importantes me causou impacto maior ou menor; diferentes, sim, mas o choque sempre foi forte.
Passei pela perda de um grande amigo, Sérgio, talvez o meu melhor amigo da pré-adultice (penso que esta expressão é minha), do qual recordo e com cuja lembrança me deparei — e ainda me deparo — com abatimento em todos os dias 10 de janeiro, data do meu aniversário, pela memória de uma celebração led zeppeliana — esta só os roqueiros entenderão — que fizemos na última comemoração juntos.
Passei pela perda de pai, mãe, irmã, filho…
E ontem foi a vez da Ana.
Confesso que não era minha melhor amiga, nem tínhamos uma grande vinculação afetiva, mas a conhecia fazia muitos anos. Muitos. Era uma pessoa simples, amável, disciplinada e modesta quando se tratava de falar de si mesma.
Possuía inegáveis virtudes, mas certamente a maior delas era uma impressionante dedicação à empresa que abraçou e tornou parte dos seus: o GBOEX, uma bandeira que empunhava como se fosse a própria alma, e aprendi a reconhecer e admirar isso.
E eram a empresa e os seus. Não conheci ninguém tão abnegado e obstinado pelos seus, por seu trabalho, e sempre cuidadora com tudo: com a mãe, com o companheiro…
A notícia, que me chegou de madrugada, estando eu longe de Porto Alegre, me chocou.
Lembrei-me da Olga, do Sérgio, do Francisco Magno, do Dr. Ney Fayet, mais recentemente do Caburé, e de tantos outros.
Espero, e me esforço, para poder, no dia em que eu for, deixar tanto quanto me deixaram estes de quem sinto a partida, que deixaram tantos desarmados e dos quais guardo grata recordação e um turbilhão de saudades.
Enquanto isso, penso que o melhor que podemos fazer por estes que levaram os nossos, talvez, melhores pedaços é aproveitar e fazer uso dos pedaços que vão nos deixando.
Faço este registro para celebrar o sorriso amável e generoso, sem perder a postura enérgica, da Ana e sua determinada forma de levar a vida.
Mesmo com as perdas, a vida é doce! Doce como o sorriso da Aninha e forte como sua energia.
Ela conquistou o direito de fazer parte da história do setor, inscrever seu nome na trajetória do GBOEX e permanecer muito presente no entorno dos seus amigos.
Vá em paz, Ana.
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