As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 transformaram a maneira como consumidores e empresas enxergam os riscos climáticos. Eventos antes classificados como excepcionais passaram a fazer parte das decisões relacionadas à proteção do patrimônio e à continuidade dos negócios.
Essa mudança de percepção foi abordada por João Amato, diretor Comercial da Regional Sul da Zurich Seguros, em entrevista à Júlia Senna, editora-chefe do JRS, durante o 24º Congresso Brasileiro dos Corretores de Seguros, realizado no Rio de Janeiro.
“O alagamento na região de Porto Alegre e arredores trouxe um cenário atípico, mas que hoje já não parece mais tão atípico assim”, observou o executivo.
Experiências recentes aumentaram a percepção dos riscos
Por atuar diretamente na Região Sul, Amato acompanha as mudanças provocadas pelos eventos climáticos e seus reflexos no comportamento dos consumidores.
Segundo ele, existe uma atenção maior às vulnerabilidades que envolvem veículos, residências, empresas e a própria estabilidade financeira das famílias. O risco deixou de ser tratado como uma possibilidade distante e passou a ser associado a situações vividas ou presenciadas pela população.
“O consumidor está mais atento às necessidades de proteção que precisam ser preenchidas”, analisou.
Essa conscientização, entretanto, não significa que todas as pessoas estejam adequadamente seguradas. Ainda existe uma distância entre reconhecer uma ameaça e contratar coberturas capazes de responder aos prejuízos decorrentes dela.
É nesse intervalo que o trabalho do corretor se torna decisivo.
Cultura de seguros não elimina a desproteção
A Região Sul possui uma cultura de seguros reconhecidamente desenvolvida. Ainda assim, permanecem oportunidades de ampliação da proteção em diferentes modalidades.
Automóveis podem circular com coberturas insuficientes ou sem seguro. Imóveis podem não contemplar eventos relevantes para sua localização. Empresas podem desconhecer os impactos financeiros de uma interrupção das atividades. Famílias, por sua vez, podem não possuir uma estrutura adequada de proteção de vida.
“Existe uma cultura de seguros mais forte, mas também uma visão mais intensa dos riscos por causa das experiências recentes”, explicou Amato.
Na avaliação do diretor, as oportunidades estão presentes em praticamente todos os produtos, incluindo seguros de Automóvel, Residencial, Empresarial e Vida.
O desafio não é simplesmente aumentar a quantidade de apólices. É reduzir lacunas de proteção que podem produzir consequências severas quando um evento acontece.
Corretor precisa traduzir risco em orientação
O noticiário sobre desastres climáticos pode despertar preocupação, mas não mostra automaticamente quais coberturas cada pessoa ou empresa precisa contratar.
Essa tradução cabe ao corretor. O profissional deve analisar a localização, o patrimônio, a atividade econômica e as exposições particulares de cada cliente antes de recomendar uma solução.
Uma residência próxima a uma área de alagamento possui características diferentes de um imóvel situado em outro ponto da cidade. Da mesma forma, uma empresa que depende de equipamentos, estoques e acesso logístico demanda uma avaliação mais ampla do que aquela baseada apenas no valor físico do prédio.
Ao realizar esse diagnóstico, o corretor deixa de ser um apresentador de produtos e passa a funcionar como um consultor de riscos.
“É necessário apresentar as novidades de forma consultiva e compreender os riscos aos quais os clientes estão expostos”, reforçou Amato.
Proteção precisa ser revisitada
As mudanças climáticas reforçam a importância da revisão periódica das apólices. Uma cobertura contratada anos atrás pode não acompanhar o valor atual do bem, as transformações da atividade ou as novas exposições percebidas na região.
Nesse processo, o corretor pode revisar limites, coberturas e bens segurados, além de identificar necessidades de proteção que antes não existiam ou não eram percebidas. Para João Amato, somente depois dessa análise devem ser apresentadas as soluções mais adequadas ao perfil de cada cliente.
Essa atuação exige responsabilidade. O objetivo não é explorar o medo provocado por acontecimentos recentes, mas transformar a experiência em prevenção e planejamento.
As enchentes de 2024 deixaram marcas profundas no Rio Grande do Sul e alteraram a percepção coletiva sobre eventos extremos. O risco climático já não pode ser tratado como exceção e o corretor, por conhecer o cliente e sua realidade, ocupa uma posição central na construção de uma proteção mais adequada.
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