O avanço da violência contra a mulher e os desafios ainda enfrentados pelas vítimas estiveram no centro dos debates do painel “Violência Contra Mulher: Como mudar isso?”, realizado durante o Encontro Estadual Feminino do Sincor-RS, nesta sexta-feira (29), na Fecomércio-RS, em Porto Alegre. O evento reuniu cerca de 600 mulheres entre corretoras de seguros, securitárias e lideranças femininas do setor.
O encontro aconteceu em um momento especialmente delicado no Rio Grande do Sul. Após dois anos sem registros de feminicídio, Bagé voltou ao centro das estatísticas estaduais com o assassinato de Maria Luiza Saraiva Gastesi, de 19 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro na madrugada de quinta-feira. O caso marcou o 36º feminicídio registrado no Estado em 2026.
Participaram do painel a vereadora de Porto Alegre Vera Armando, a deputada estadual Nadine Anflor, a promotora de Justiça Luciana Casarotto, a defensora pública Paula Granetto e a psicóloga Thaiéle Teixeira.
Ao longo das falas, as especialistas abordaram avanços legais, dificuldades estruturais da rede de proteção e o peso da dependência financeira nos relacionamentos abusivos.
Vera Armando chamou atenção para a necessidade de continuidade das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, independentemente de mudanças de governo.
“A Patrulha Maria da Penha não pode deixar de existir. Não importa quem esteja no governo. É um projeto que salva vidas”, afirmou.
A vereadora também destacou novas medidas implementadas em Porto Alegre, como a exigência de antecedentes criminais para profissionais que atuam com crianças, adolescentes, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.
“É inaceitável que nossos filhos, nossos pais e pessoas vulneráveis sofram abusos. Isso não é pauta só de mulheres, é uma questão de sociedade”, disse.
Ex-chefe da Polícia Civil gaúcha e primeira mulher a ocupar o cargo em mais de 180 anos de história da instituição, Nadine Anflor relembrou a evolução das políticas de proteção às mulheres no Estado.
“Na minha época tínhamos nove Delegacias da Mulher. Hoje já são 24. E como nem todos os municípios conseguiam ter uma unidade especializada, criamos as Salas das Margaridas”, explicou.
Segundo a delegada, o projeto levou parte da estrutura de acolhimento e orientação às cidades menores do Rio Grande do Sul.
“Hoje já são mais de 110 Salas das Margaridas. É uma forma de aproximar o trabalho da Delegacia da Mulher de municípios que não possuem estrutura própria.”
Apesar das mudanças, Nadine ressaltou que o combate à violência exige também autonomia financeira e independência emocional das vítimas.
“Eu ouvi muitas mulheres dizendo: ‘Estava ruim com ele, mas está pior sem’. Elas voltavam à delegacia pedindo a soltura do agressor porque não conseguiam sustentar os filhos”, relatou.
Para ela, discutir violência doméstica passa inevitavelmente pela liberdade financeira feminina.
“Se queremos mudar essa realidade, precisamos falar de autonomia. O dinheiro é uma das portas de saída.”
A promotora Luciana Casarotto reforçou que a presença feminina em espaços de liderança também exerce papel importante na transformação cultural.
“Quando uma menina vê mulheres ocupando posições de poder, ela entende que também pode chegar lá”, afirmou.
Luciana também alertou para os riscos da romantização de relações de dependência extrema, especialmente em conteúdos disseminados nas redes sociais.
“O dinheiro não é a única chave da saída, mas é uma delas. Muitas mulheres ainda permanecem em relações abusivas porque perderam autonomia.”
A defensora pública Paula Granetto destacou o impacto simbólico da representatividade feminina em cargos públicos e espaços de decisão.
“É importante que meninas vejam mulheres ocupando esses lugares. Isso faz com que elas também sonhem em estar ali um dia”, disse.
Já a psicóloga Thaiéle Teixeira chamou atenção para os impactos emocionais enfrentados pelas vítimas durante o processo judicial.
Segundo ela, muitas ainda convivem com situações de revitimização dentro do próprio sistema de Justiça. “Às vezes a mulher precisa esperar uma audiência no mesmo ambiente que o agressor. Dependendo da fragilidade emocional em que ela está, isso pode ser extremamente violento”, afirmou.
Thaiéle ainda destacou o recorte racial da violência doméstica no Brasil.
“Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 64% das vítimas são mulheres negras. Precisamos olhar também para esse atravessamento racial.”
Ao longo do debate, as participantes reforçaram que o enfrentamento à violência contra a mulher exige atuação conjunta entre segurança pública, Justiça, políticas sociais, educação e autonomia econômica.
O painel integrou a programação do Encontro Estadual Feminino do Sincor-RS, considerado o maior evento exclusivamente feminino do mercado segurador brasileiro.
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