Guerra, diesel e risco: o que 2018 ainda ensina ao mercado de seguros

Artigo é de autoria do empreendedor Nicolas Galvão

Com a guerra pressionando energia, frete e inflação, o diesel volta a expor uma fragilidade conhecida do Brasil: quando a logística entra em tensão, o risco se espalha, e o mercado de seguros sente antes do que parece.

Há temas que parecem econômicos, mas, observados de perto, revelam a estrutura e a fragilidade de um país. O diesel é um deles. A Petrobras reajustou o diesel A em R$ 0,38 por litro, o equivalente a R$ 0,32 por litro no diesel B vendido nos postos, em um momento em que a guerra no Oriente Médio continua pressionando cadeias energéticas, preços e expectativas globais. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas combustível. Passa a ser logística, prazo, capital de giro, inflação e continuidade operacional. Em outras palavras, passa a ser risco.

A memória de 2018 continua útil justamente por isso. A paralisação dos caminhoneiros mostrou, de forma dura, como uma tensão nas estradas rapidamente se espalha pelo resto da economia. O aprendizado para o mercado de seguros não foi apenas sobre greve. Foi sobre vulnerabilidade logística. Quando a circulação trava, ou simplesmente fica cara demais, a pressão aparece na carga, no frete, no caixa das empresas e, por consequência, no risco segurado.

 

O primeiro ponto dessa discussão está no seguro de transporte. Os dados do Painel de Estatísticas da SUSEP mostram um mercado de aproximadamente R$ 6,6 bilhões em prêmios emitidos em 2025, acima dos R$ 6,1 bilhões de 2024 e dos R$ 5,8 bilhões registrados em 2023 e 2022. É um segmento diretamente ligado à economia real, e por isso tão sensível ao aumento do diesel. Se o combustível sobe e a margem do transporte aperta, a operação tende a ficar mais frágil: rotas menos eficientes, mais carga parada, mais improviso logístico e menor previsibilidade. O risco não sobe apenas porque o caminhão fica mais caro. Ele sobe porque a engrenagem inteira perde eficiência.

O retrato competitivo do setor também ajuda a entender seu peso. Ainda segundo o Painel de Estatísticas da SUSEP, a produção de 2025 ficou distribuída entre grupos relevantes, com liderança da Sompo, R$ 1,05 bilhão, seguida por Tokio, R$ 0,82 bilhão, Akad, R$ 0,66 bilhão e Allianz, R$ 0,50 bilhão, além de outros players relevantes como Essor, Chubb, Sura, Porto, AXA, Yelum e HDI. É uma carteira consolidada, com escala e participação efetiva na infraestrutura econômica do país.

Há ainda um ponto importante. O próprio ambiente regulatório vem reforçando o papel do seguro nessa cadeia. A ANTT iniciou a integração nacional para verificação automática dos seguros obrigatórios do transporte de cargas, com checagem para inscrição e manutenção do registro dos transportadores a partir de julho de 2026. Isso ajuda a lembrar que, nesse segmento, seguro não é acessório. É parte da infraestrutura formal do transporte rodoviário brasileiro.

Mas seria um erro tratar esse choque como algo restrito ao transporte. Diesel mais caro pressiona frete. Frete mais caro pressiona alimentos, insumos, distribuição e operação. E, quando isso se espalha, o mercado segurador sente o efeito tanto no risco quanto no comportamento do cliente. Cresce a sensibilidade a preço, aumenta a pressão por renegociação e, ao mesmo tempo, sobe a necessidade de proteção. O seguro não observa a economia de fora. Ele absorve parte dos seus choques.

Talvez a principal lição de 2018 esteja aí. Toda vez que o diesel volta ao centro da discussão, somos lembrados de que continuidade operacional é um ativo econômico. E ativos econômicos precisam ser protegidos. A guerra pode estar longe, mas seus efeitos chegam rápido quando passam pela energia. E, no Brasil, energia mais cara quase sempre encontra a logística no caminho.

Quando o diesel sobe, o risco também sobe, mas raramente de forma linear. Às vezes ele aparece no frete. Às vezes na carga. Às vezes no caixa da empresa. E, em momentos mais tensos, aparece na constatação de que ainda dependemos demais de uma logística vulnerável para tratar esse tema como se fosse apenas setorial.

A lição de 2018 não foi apenas logística. Foi securitária. Quando a circulação entra em tensão, o risco se espalha. E, nesses momentos, o seguro deixa de ser apenas proteção contratual para revelar seu papel mais importante: sustentar a resiliência de uma economia inteira.

Crédito foto:

Filipe Tedesco

Crédito texto:

Nicolas Galvão

Publicado por:

Picture of Redação JRS

Redação JRS