Diferentes análises de vulnerabilidade na primeira infância demandam atenção ampliada em relação aos ganhos da família. Nessa etapa inicial da vida, por vezes habitam lares providos de recursos e vivenciam a falta de alimento adequado, saneamento básico, assistência médica, incentivo educacional e proteção.
O conceito de pobreza multidimensional adotado pelo UNICEF ajuda a dimensionar esse cenário. Em 2023, 28,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros de 0 a 17 anos, o equivalente a 55,9% dessa população, enfrentavam pelo menos uma privação relacionada a direitos fundamentais. O estudo considera dimensões como renda, educação, acesso à informação, água, saneamento, moradia e proteção contra o trabalho infantil.
Os números da Fundação Abrinq reforçam a dimensão do problema desde os primeiros anos de vida. Em 2023, 46,5% das crianças de até 6 anos estavam em situação de pobreza, o equivalente a 9,4 milhões de crianças. A pobreza extrema alcançava 16,7%, ou 3,3 milhões. No mesmo período, 3,8% das crianças menores de 5 anos apresentavam desnutrição, considerando a relação peso/idade, enquanto quase 280 mil estavam abaixo do peso ideal.
Na avaliação de André de Britto, diretor-presidente do Projeto Criança Cidadã, esses indicadores precisam ser compreendidos em conjunto. “A renda é um indicador importante, mas está longe de explicar sozinha a vulnerabilidade de uma criança. Precisamos olhar para a infância de maneira multidimensional.”
Segundo ele, essa análise envolve alimentação, saneamento, saúde, educação, segurança, desenvolvimento emocional e proteção. Violência doméstica, negligência, trabalho infantil, dificuldade de aprendizagem, evasão ou infrequência escolar e falta de acesso à cultura, ao esporte, à tecnologia e a espaços seguros de convivência podem fazer parte de uma mesma realidade.
Um problema que se combina
As diferentes formas de privação raramente aparecem isoladas. Fome, dificuldades escolares, violência e falta de atividades no contraturno podem reforçar umas às outras, criando um ciclo difícil de interromper.
“Na prática, raramente encontramos uma vulnerabilidade isolada. Elas formam uma espécie de ciclo”, afirma André.
Uma criança que não se alimenta adequadamente pode apresentar cansaço, dificuldade de concentração e baixo rendimento escolar. Esse desempenho pode contribuir para a desmotivação e o abandono da escola. Em ambientes marcados por violência, dependência química, desemprego ou conflitos constantes, o sofrimento emocional tende a se agravar.
Quando não existe um espaço seguro no contraturno escolar, a exposição a situações de violência, exploração e outras formas de violação pode crescer.
“É por isso que o atendimento precisa enxergar a criança integralmente. Não adianta alimentar sem educar, instruir sem proteger ou resguardar sem cuidar também da saúde física e emocional.”
A importância dessa abordagem aparece em diferentes partes do território nacional. O IBGE registrou 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2024. A Região Norte apresentou a maior proporção, com 6,2% dessa população, enquanto o Sudeste registrou 3,3%.
Na segurança alimentar, as diferenças regionais permanecem expressivas. Em 2024, 62,4% dos domicílios do Norte estavam em situação de segurança alimentar, diante de 65,2% no Nordeste, 79,5% no Centro-Oeste, 80,3% no Sudeste e 86,4% no Sul, segundo a Pnad Contínua do IBGE.
André observa que cada região apresenta características próprias. “No Norte, as grandes distâncias territoriais, comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, dificuldades de transporte e limitações de acesso a saneamento, saúde e outros serviços públicos criam desafios muito específicos.”
No Nordeste, ele destaca o peso da pobreza monetária, da insegurança alimentar e das desigualdades históricas. No Centro-Oeste, entram em cena as distâncias e a presença de populações rurais e indígenas. Já no Sudeste, riqueza e vulnerabilidade convivem dentro dos mesmos territórios, enquanto no Sul os indicadores médios mais favoráveis não eliminam a existência de famílias em situação de pobreza, violência, negligência ou fome.
“O Brasil não possui uma única infância. Existem muitas infâncias, profundamente influenciadas pelo CEP onde a criança nasceu, sua condição familiar e as oportunidades existentes ao seu redor.”
O papel do contraturno
Nesse cenário, os espaços de convivência podem funcionar como uma extensão da rede de proteção. Mais do que ocupar o período fora da escola, atividades esportivas, culturais e educativas podem ampliar vínculos e revelar necessidades que não aparecem imediatamente.
“O contraturno escolar é um período estratégico. Quando uma criança possui um lugar seguro para permanecer, com adultos de referência e acesso a esporte, música, dança, tecnologia, cultura e convivência, estamos oferecendo muito mais do que uma atividade recreativa.”
Na visão de André, esse ambiente fortalece a disciplina, a autoestima, a criatividade, os laços sociais e diversas competências cognitivas e socioemocionais.
“No Projeto Criança Cidadã, percebemos diariamente que uma oficina pode ser uma verdadeira porta de entrada para uma transformação muito maior. Às vezes a criança chega pela música, pelo esporte ou pela informática e, a partir daquele vínculo, conseguimos identificar dificuldades escolares, problemas familiares, necessidades psicológicas, odontológicas, sociais ou alimentares.”
A atuação começa pela escuta e pelo acompanhamento. Educadores, oficineiros e equipe técnica observam mudanças de comportamento, faltas frequentes, fome excessiva, dificuldades de aprendizagem, retraimento, agressividade, higiene inadequada e outros sinais que podem indicar problemas além daqueles percebidos inicialmente.
“Por isso, defendemos uma equipe multidisciplinar e uma rede articulada. Uma mesma criança pode precisar simultaneamente de alimentação, acompanhamento psicológico, reforço dos vínculos familiares, atendimento de saúde e oportunidades educativas.”
Segundo informações apresentadas pelo projeto, a iniciativa atende aproximadamente 1.600 crianças e adolescentes diariamente e mantém atividades no Brasil e em países como Angola, Moçambique e Índia. O alcance internacional e a existência de unidades nessas localidades também aparecem nas páginas institucionais da organização.
Renda é parte da resposta, não a resposta inteira
A transferência de renda ocupa papel relevante na proteção social e na redução da pobreza, mas não elimina automaticamente outras privações.
“Transferência de renda é fundamental e salva famílias de situações extremas. Inclusive os dados mostram a relevância de programas de proteção social na redução da pobreza infantil. Mas aumentar a renda familiar não resolve automaticamente violência doméstica, abandono escolar, problemas emocionais, deficiência na aprendizagem ou ausência de vínculos familiares.”
A análise do UNICEF segue essa mesma lógica ao considerar que a pobreza infantil precisa ser observada a partir de diferentes dimensões e não apenas da renda.
Rede precisa funcionar em conjunto
A integração entre saúde, educação, assistência social, esporte, cultura e proteção aparece como um dos principais desafios apontados na entrevista.
“Muitas vezes saúde, educação, assistência social, esporte, cultura e proteção atuam como estruturas independentes, enquanto a criança é uma só.”
Acompanhar os casos de forma intersetorial, compartilhar informações de maneira responsável e identificar precocemente situações de vulnerabilidade evita que problemas se agravem.
“Também precisamos abandonar uma lógica excessivamente reativa. É muito mais inteligente, humano e economicamente eficiente investir antes que uma situação se transforme em evasão escolar, violência grave, dependência química, criminalidade ou rompimento familiar.”
Nesse modelo, a responsabilidade não recai sobre um único agente. O poder público responde pela garantia de direitos e pelo financiamento de políticas estruturantes; a escola ocupa posição estratégica na identificação de sinais; as famílias precisam de apoio e orientação; organizações sociais atuam próximas das comunidades; e empresas podem contribuir com recursos, conhecimento, tecnologia, voluntariado e parcerias de longo prazo.
“Nenhum setor conseguirá resolver esse problema sozinho.”
O custo de não cuidar
Ao longo de 17 anos de atuação, segundo André, o Projeto Criança Cidadã encontrou expressões da vulnerabilidade. Alimentação continua entre as principais demandas, mas convivem com ela necessidades psicológicas, odontológicas, sociais, escolares e relacionadas aos vínculos familiares.
“Encontramos famílias que precisam não somente de ajuda material, mas também de orientação e de uma rede de apoio.”
Em alguns casos, a necessidade é imediata, como uma refeição. Em outros, passa pela escuta, pelo afeto, pela descoberta de uma habilidade ou pelo primeiro contato com uma atividade cultural ou esportiva.
Pratos equilibrados impulsionam o rendimento do aluno. Práticas culturais estimulam aptidões ocultas. Sessões com psicólogos promovem o alívio de traumas. Professores dedicados evitam a evasão escolar. Recintos seguros mantêm a violência distante. “Combater a vulnerabilidade infantil não é fazer caridade. É garantir direitos, interromper ciclos de exclusão e investir no desenvolvimento social e econômico do Brasil.”
A síntese, segundo André, está em uma mudança de perspectiva. “A pergunta que deveríamos fazer como sociedade não é quanto custa investir em nossas crianças. A verdadeira pergunta é: quanto custará ao Brasil não investir nelas?”
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