Quando pedir ajuda também é uma forma de cuidado

Especialista da PróVida aborda saúde mental, limites e os sinais que merecem atenção no ambiente de trabalho

Uma pessoa pode passar horas diante de uma tela sem que isso pareça, à primeira vista, um problema. Notificação após notificação, vídeo após vídeo, a experiência digital foi se tornando parte da rotina. O que nem sempre é percebido é o efeito que essa exposição pode ter sobre a autoestima, as relações e a forma como cada pessoa enxerga a própria vida.

Dada a reflexão, a questão reside menos na duração da conexão e mais nos frutos desse período. Numa sociedade permeada pela comparação e pela busca por aprovação, o bem-estar da mente envolve a análise de sentimentos vivenciados no silêncio.

Foi a partir dessa perspectiva que o Grupo PróVida promoveu uma palestra online sobre Saúde Mental no Trabalho, reunindo colaboradores de diferentes unidades. O encontro integrou as ações de conscientização do Setembro Amarelo e teve a participação da Dra. Ândrea Bico, médica do trabalho, psiquiatra e diretora técnica da PróVida Medicina do Trabalho.

O debate trouxe uma distinção relevante. Saúde mental prescinde do equilíbrio; medo, ansiedade, tristeza e raiva integram a vivência humana, sem a caracterização de patologia em manifestações isoladas.
Segundo a médica, o sofrimento psíquico também pode surgir diante de situações concretas, como perdas, dificuldades financeiras ou uma demissão. Isso não significa, necessariamente, a existência de um transtorno mental.

“Sentimentos isolados não significam que o indivíduo esteja doente psiquicamente. Quando os sintomas começam a ficar persistentes e a causar prejuízos no dia a dia, é a hora de procurar ajuda profissional.”

Um dos pontos abordados durante a palestra foi a relação entre redes sociais e autoestima. No ambiente digital, a comparação acontece a partir de recortes cuidadosamente selecionados da vida de outras pessoas. O problema é que, muitas vezes, essa vitrine é confrontada com os bastidores da própria existência.

“O uso das mídias sociais e a busca por validação digital afetam a autoestima e criam comparação injusta entre bastidores pessoais e vitrine alheia”, afirmou Ândrea.

A discussão ganha importância justamente porque a vida cotidiana não segue a mesma lógica das redes. Preocupações, frustrações, dificuldades financeiras, conflitos familiares e outras questões continuam presentes mesmo quando a pessoa precisa cumprir suas atividades profissionais.

Nesse contexto, a médica chama atenção ao reconhecimento dos próprios limites. O autoconhecimento, segundo ela, não deve ser entendido como uma demonstração de fragilidade, mas como uma ferramenta de prevenção. “Autoconhecimento traz somente benefícios para qualquer área.”

A relação entre saúde mental e ambiente trabalhista foi outro eixo da conversa. Embora situações específicas possam contribuir com o sofrimento psíquico, Ândrea destaca que o trabalho, em muitos casos, exerce uma função protetiva.

Ao mesmo tempo, a organização precisa reconhecer que o profissional não deixa a vida pessoal do lado de fora ao entrar na empresa. As duas dimensões convivem e podem influenciar a concentração, a produtividade e a capacidade de lidar com as demandas.

A responsabilidade, nesse cenário, é compartilhada. Cabe ao trabalhador cuidar de si e procurar ajuda quando necessário. À liderança compete organizar demandas, manter uma comunicação adequada e exercer escuta ativa, sem assumir o papel de terapeuta. Já a organização responde pela forma como o trabalho é estruturado e administrado.

A discussão sobre riscos psicossociais e a Norma Regulamentadora 1 também foi abordada. Ândrea ponderou que metas, cobranças, conflitos e feedbacks negativos fazem parte da atividade profissional e não configuram automaticamente assédio, violência ou risco psicossocial. A situação passa a exigir atenção quando intensidade, frequência e duração são excessivas e não existem recursos adequados de enfrentamento.

Um dos alertas apresentados durante a palestra foi a necessidade de observar mudanças no comportamento e na capacidade de realizar atividades cotidianas. Queda de produtividade, lapsos de memória, ansiedade acentuada e humor deprimido podem indicar que algo não está bem.

Patricia Oliveira enfatizou que não se deve aguardar que o sofrimento se intensifique antes de buscar apoio. A perda de esperança, de objetivos e de sonhos também merece atenção, sobretudo no comprometimento da rotina. Recomenda-se procurar ajuda profissional diante de sinais persistentes, e não transformar o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em motivo de estigma.

A própria PróVida mantém canais de atendimento que podem ser acionados pelos beneficiários. Em todas as modalidades dos Serviços Assistenciais, há teleconsulta 24 horas com atendimento psicológico imediato. Já na modalidade Proteção Total, estão disponíveis telemedicina psiquiátrica e psicológica sem custo adicional por acionamento, permitindo também um acompanhamento continuado.

O atendimento digital funciona como uma porta de entrada, especialmente em momentos nos quais a pessoa precisa conversar com um profissional ou não sabe exatamente qual caminho seguir.
A palestra ainda reforçou uma mudança de perspectiva: falar de saúde mental não deveria acontecer apenas diante de uma crise. O cuidado começa antes, na percepção dos próprios sentimentos, na identificação de limites e na disposição de procurar apoio.

O adoecimento mental é multifatorial e pode envolver predisposição genética, histórico de vida, personalidade, condições físicas e contexto socioeconômico. Por isso, não existe uma única explicação capaz de definir por que alguém adoece.

Nesse sentido, cuidar do corpo, da mente e dos próprios valores também faz parte de uma estratégia preventiva. Ao tratar do Setembro Amarelo, o encontro resgata a origem do movimento de conscientização e reforça a importância da valorização da vida. A mensagem alcança espaços além do ambiente corporativo e reforça que buscar ajuda é uma atitude de cuidado, e não um sinal de fraqueza.

Crédito foto:

Divulgação Grupo PróVida

Crédito texto:

Fernanda Torres

Publicado por:

Picture of Redação JRS

Redação JRS