Setembro Verde: uma família, três transplantes e diferentes formas de doar

Ao longo de quase quatro décadas, Indiara passou por transplantes com doadores vivos e falecidos

No corredor do hospital, pouco antes de entrar no centro cirúrgico, duas irmãs receberam o abraço da mãe. De um lado, Indiara Ramos se preparava novamente para um transplante renal. Do outro, Lucinara Ramos se encaminhava à cirurgia como doadora. Entre elas, uma história que já atravessava décadas de consultas, internações, hemodiálise e dois transplantes.

“Uma lembrança que eu tenho muito forte, do dia em que a gente transplantou, é que, quando estava no bloco, a minha mãe entrou correndo no corredor. Ela foi dar um abraço na gente, para que a gente entrasse no bloco. Então, isso me marcou bastante”, recorda Indiara.

Aos cinco anos, Indiara havia sido diagnosticada com câncer no rim esquerdo. Precisou retirar o órgão e parte do fígado. Quatro anos depois, o único rim que ainda funcionava parou de responder. Vieram o acompanhamento na Nefrologia da Santa Casa, em Porto Alegre, e a hemodiálise. Em 16 de setembro de 1997, aos nove anos, ela recebeu o primeiro transplante. O pai foi o doador.

O rim funcionou durante 17 anos. Aos 22, Indiara voltou à máquina de hemodiálise e entrou novamente no processo de avaliação. Desta vez, o órgão veio de um doador falecido, um homem de 52 anos, natural do Ceará, segundo o relato. Após os testes de compatibilidade, ela foi selecionada e voltou à rotina.

Em maio de 2021, uma nova complicação comprometeu o rim transplantado de Indiara, levando à falência total do órgão e ao retorno forçado à rotina de hemodiálise. A reviravolta no tratamento veio de dentro de casa: sua irmã, Lucinara – gerente regional do Grupo PróVida —, tomou a decisão de doar o próprio rim. A história das duas irmãs dá rosto e sensibilidade à causa do Setembro Verde, campanha nacional que reforça a urgência da conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos no Brasil.

Em 2025, 9.261 entrevistas com familiares de potenciais doadores foram realizadas no país. Em 4.200 casos, houve negativa, o equivalente a 45%, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). No Rio Grande do Sul, foram 581 entrevistas e 267 recusas, uma taxa de 46%.

Ao mesmo tempo, a demanda permanece elevada. Em dezembro de 2025, 73.877 pacientes estavam ativos na lista de espera por transplantes no Brasil. Os rins concentravam a maior parcela: 38.925 pessoas aguardavam um órgão. No Rio Grande do Sul, eram 2.304 pacientes na fila, sendo 1.180 à espera de um rim.

Em 2025, o país realizou 6.697 transplantes renais. O número cresceu 5,9% em relação ao ano anterior, com alta de 8,1% nos procedimentos feitos com doadores falecidos e recuo de 7,2% nos transplantes com doadores vivos.

 

Ato de amor

Quando Indiara recebeu o primeiro diagnóstico, Lucinara ainda era criança. Tinha dois anos e meio e acompanhou, ao lado dos pais, parte de uma rotina que se tornou familiar: hospitais, exames, tratamentos e incertezas.

“Cresci praticamente no hospital, acompanhando minha mãe nos exames. Tudo que a minha irmã vivenciava lá dentro, pois não se tratava apenas do câncer. Outros problemas surgiram junto com o câncer.”

Há mais de três décadas, o assunto era distante daquela família.

Contudo, a passagem do tempo e a urgência do cenário ressignificaram essa perspectiva. “Não vou dizer que é normal hoje a doação de órgãos, mas a gente normalizou. Porque sempre foi necessário a gente ter aquele entendimento de que aquilo era um ato de amor.”

No terceiro transplante, essa compreensão ganhou outra dimensão. Lucinara era compatível com a irmã e decidiu ser a doadora.

“Eu acho que foi muito importante nesse período o apoio da família. A doação de órgãos sempre esteve presente na nossa família.”

O Ministério da Saúde estabelece que um dos rins pode ser doado em vida. O doador deve ser maior de idade, juridicamente capaz, estar em condições adequadas de saúde e ter sua decisão voluntária. Parentes até o quarto grau e cônjuges podem realizar a doação; nos casos que envolvem não parentes, é necessária autorização judicial.

Nos transplantes com doadores falecidos, a escolha do receptor considera exames de compatibilidade e critérios como tempo de espera e urgência, conforme as regras do Sistema Nacional de Transplantes.

 

Entre a esperança e o medo

A decisão de Lucinara também foi acompanhada de uma preocupação prática: ajudar a irmã sem comprometer a própria saúde.

“Eu queria ter certeza de que a minha irmã não correria nenhum risco especificamente. Foi muito importante, nesse período, o apoio dela, da família.”

A terceira etapa foi mais dura para Indiara. Durante o período de insuficiência renal, ela enfrentou complicações graves, entre elas um derrame peridural, retenção de líquidos e edema pulmonar.

Mesmo diante desses desafios, ambas perseveraram. A lembrança da mãe correndo pelo corredor antes da cirurgia acabou se tornando um dos símbolos mais fortes daquele momento. A presença dela, segundo Lucinara, havia marcado a história da família.

“A minha mãe esteve presente em todo o processo. Eu acho que, sem ela, a minha irmã não estaria aqui. Ela deu a vida pela Indiara.”

Desde o diagnóstico na infância, a mãe acompanhou internações, exames e tratamentos. Mais do que estar presente, tornou-se uma espécie de eixo em torno do qual a família se organizou.

 

Quando uma despedida pode significar outra oportunidade

O segundo transplante de Indiara apresentou outra face da doação. O rim recebido veio de um doador falecido e permitiu que ela retomasse a vida cotidiana.

“Eu acho que é o modo da pessoa continuar viva, de alguma forma, e ajudar o próximo.”

No Brasil, a doação de órgãos de uma pessoa falecida depende da confirmação da morte encefálica e da autorização da família. Depois, são realizados os procedimentos de identificação do receptor e retirada dos órgãos por equipes autorizadas.

A trajetória de Indiara mostra como uma única história pode reunir diferentes faces do transplante: a doação em vida, a espera por um órgão de doador falecido e, novamente, a decisão de um familiar de doar.

Ao longo de quase quatro décadas, foram três transplantes, dois deles com doadores da própria família. Em cada etapa, houve exames, tratamentos, medo e espera. Mas também houve escolhas capazes de alterar o curso de uma vida. No caso das irmãs, a palavra que atravessa essa história talvez seja a mesma que acompanha a família desde a infância: cuidado.

Crédito foto:

Divulgação PróVida

Crédito texto:

Fernanda Torres

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