Qualidade de vida que se mede e gera resultados

Dados de saúde ocupacional orientam decisões que reduzem faltas, afastamentos e perdas de produtividade.

Por muito tempo, eventos isolados e métricas imprecisas marcaram a visão de bem-estar corporativo. Esse modelo, porém, tem perdido espaço diante de um cenário em que absenteísmo, presenteísmo e afastamentos prolongados pressionam custos, produtividade e clima organizacional.

Na avaliação da médica do trabalho Dra. Ândrea Bico da Cruz, o ponto de partida está na escolha correta dos indicadores. “Os mais estratégicos são os que se conectam diretamente com afastamentos e produtividade. Monitoramos taxa de absenteísmo (frequência e duração), presenteísmo, afastamentos por grupos de CID, recidivas, tempo médio até retorno ao trabalho e restrições funcionais”, afirma. No campo clínico, saúde mental, doenças musculoesqueléticas, condições cardiometabólicas e distúrbios do sono aparecem como focos recorrentes de atenção.

Além disso, exames periódicos, indicadores ergonômicos, registros de acidentes e informações de sinistralidade, quando há plano de saúde, ajudam a mapear onde o adoecimento se concentra.

 

Antecipação de desligamentos

O uso inteligente de métricas beneficia a atuação preventiva, interrompendo o avanço do absenteísmo antes que o quadro piore. Para isso, o processo envolve o cruzamento de diferentes fontes de informação, como PCMSO, RH, SST e benefícios. “Padronizamos os dados, agrupamos CIDs por grandes categorias e analisamos tendências por área, função e turno”, detalha Dra. Ândrea.

Sinais de alerta surgem antes dos afastamentos longos: aumento de faltas curtas repetidas, crescimento de queixas de dor ou ansiedade, maior número de restrições funcionais ou sobrecarga de horas extras. A identificação desses padrões permite intervenções precoces, reduzindo a probabilidade de afastamentos prolongados e custos associados.

 

Programas menos genéricos

O cruzamento entre indicadores de saúde ocupacional e dados de absenteísmo também transforma a lógica dos programas de qualidade de vida. Em vez de ações genéricas, as iniciativas passam a ser direcionadas conforme a causa predominante do problema. “Se um setor concentra faltas associadas a CIDs musculoesqueléticos, o foco é ergonomia e organização da tarefa. Se o destaque é saúde mental, a intervenção passa por gestão do estresse, capacitação de líderes e revisão da carga de trabalho”, exemplifica.

Doenças crônicas descompensadas, por sua vez, demandam linhas de cuidado e acompanhamento clínico contínuo. O programa deixa de ser genérico e passa a ser cirúrgico.

Para a Dra. Ândrea, essa é a principal diferença entre programas tradicionais e modelos orientados por dados. “O tradicional mede atividade; o baseado em dados mede resultado”, afirma. Em vez de apenas realizar campanhas, o modelo estruturado define metas de saúde, acompanha indicadores ao longo do tempo e ajusta as ações conforme os dados evoluem. Trata-se de um ciclo contínuo de medir, intervir e reavaliar, o que aumenta significativamente a efetividade na redução de faltas e retiradas.

 

Estratégia de negócio
Nesse processo, a Medicina do Trabalho assume um papel que vai além da assistência. “É transformar informação em decisão. A Medicina do Trabalho define o que deve ser medido, garante interpretação técnica correta, protege a confidencialidade dos dados e traduz os achados em políticas práticas, retorno ao trabalho, gestão de restrições, ergonomia baseada em evidência, fluxos de acolhimento em saúde mental”, destaca a especialista.

Por fim, Dra. Ândrea chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: o retorno ao serviço. Sem acompanhamento nos primeiros meses após o afastamento, adaptações adequadas e liderança preparada, o risco de novos afastamentos aumenta. Outro fator decisivo está na própria organização do trabalho. “O absenteísmo não é só doença. Metas irreais, clima ruim e sobrecarga adoecem. Se isso não for enfrentado, qualquer programa de qualidade de vida se torna superficial.

Quando orientados por indicadores e evidências, os programas de qualidade de vida deixam de ser simbólicos e contribuem efetivamente na redução do absenteísmo, ao mesmo tempo em que promovem o equilíbrio entre o cuidado com as pessoas e a sustentabilidade financeira das empresas.

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Fernanda Torres

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