Estamos chegando ao fim do mês, mas a campanha do Abril Verde, voltada à conscientização e à prevenção de acidentes de trabalho, precisa ir além do calendário e ser lembrada ao longo de todo o ano. O tema ganha relevância em razão de um panorama nacional que preocupa, no qual os problemas de saúde mental dos trabalhadores se somam aos desafios relativos às ocorrências físicas.
Segundo a médica do trabalho e psiquiatra Ândrea Bico, do Grupo PróVida, o Brasil registrou mais de 724 mil acidentes de trabalho em 2024, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego. A maior parte dos casos — 74,3% — corresponde a acidentes típicos, ocorridos durante a atividade laboral. Já os acidentes de trajeto representam 24,6%, enquanto apenas 1% está relacionado a doenças ocupacionais, um dado que acende um alerta.
“O Abril Verde é importante porque tira a prevenção do campo burocrático e a coloca como pauta estratégica. Para a saúde ocupacional, ele reforça a necessidade de identificar riscos, implementar medidas de controle, acompanhar indicadores, investigar acidentes e integrar PGR, PCMSO, treinamentos e gestão de afastamentos”, afirma a especialista.
Entre os principais tipos de ocorrências, continuam predominando situações já conhecidas das empresas. Tais eventos englobam quedas, cortes, esmagamentos e acidentes com maquinário pesado. Lesões em mãos, braços e pernas seguem entre as frequentes, evidenciando lacunas em medidas básicas de prevenção.
Além dos riscos físicos, outro ponto que preocupa é o avanço dos transtornos mentais. Em 2024, o país registrou mais de 472 mil afastamentos por condições como ansiedade e depressão, um aumento expressivo em relação ao ano anterior.
Para a médica, esses dados mostram que a gestão de saúde ocupacional ainda precisa evoluir. “A segurança do trabalho não é apenas obrigação legal: é gestão de risco, sustentabilidade empresarial”, destaca.
Não apenas obrigação
O Abril Verde tem papel importante justamente por ampliar esse debate. A campanha tira a prevenção do campo burocrático e coloca no centro da estratégia das empresas.
Isso inclui a integração de ferramentas como o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), treinamentos e análise de indicadores. No setor de seguros, essa abordagem também tem impacto direto.
“Acidentes aumentam afastamentos, rotatividade, passivos trabalhistas, custos previdenciários e podem repercutir no FAP, que influencia a carga relacionada ao Seguro de Acidente do Trabalho”, explica.
Onde as empresas ainda erram
Apesar dos avanços regulatórios, muitas organizações ainda falham na execução. Entre os principais problemas estão:
“O problema não é a falta de norma. É falta de consistência na aplicação”, resume Ândrea.
Saúde física e mental caminham juntas
Outro ponto é a integração entre saúde física e mental. Fatores como jornadas extensas, pressão por resultados, assédio e falta de descanso impactam a segurança laboral.
Com a atualização da NR-1, os riscos psicossociais passaram a ser incluídos de forma mais explícita no gerenciamento de riscos ocupacionais. Na prática, isso exige das empresas uma abordagem mais ampla, com diagnóstico, escuta ativa e preparação das lideranças.
Para a especialista, é essencial mudar a visão sobre o tema. A prevenção não começa no evento grave, mas, sim, na identificação de perigos, na análise das atividades e na tomada de decisões baseada em dados.
“A mensagem do Abril Verde é clara: acidente de trabalho não é fatalidade. Na maioria das vezes, ele é resultado de riscos conhecidos que não foram adequadamente controlados”, conclui.
Em um cenário de complexidade, que envolve desde riscos operacionais até questões emocionais, a prevenção deixa de ser apenas uma exigência legal e se consolida como pilar essencial de sustentabilidade, gestão e proteção à vida.
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