A principal missão da COP30 será transformar compromissos climáticos em projetos capazes de atrair investimentos em escala. A avaliação foi feita pela CEO da COP30, Ana Toni, durante sua participação como keynote speaker no Global Roundtable – Brazil Day, realizado na London Climate Action Week, na última quinta-feira, 25.
Segundo Ana Toni, o mundo já conseguiu mobilizar cerca de US$ 200 bilhões para financiamento climático, mas o volume ainda está muito distante da meta prevista no chamado Roadmap Baku-Belém, construído a partir dos compromissos assumidos nas últimas conferências do clima. “O grande desafio agora é mobilizar o setor privado. Hoje, cerca de 78% dos recursos para financiamento climático ainda vêm do setor público. Não chegaremos a US$ 1,3 trilhão sem uma participação muito maior do capital privado”, afirmou.
Para a executiva, a COP30 marca o início de uma nova fase da agenda climática global, focada menos em negociações e mais na implementação das soluções necessárias para cumprir os compromissos assumidos pelos países. “Entramos na década da implementação, que é uma responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado, instituições financeiras, bancos multilaterais e sociedade civil”, destacou.
Traduzir a agenda climática para o mercado
Economista de formação e ambientalista por trajetória profissional, ela afirmou que um dos principais obstáculos é a dificuldade histórica de comunicação entre os setores ambiental e financeiro. “Por muitos anos, não conseguimos falar a mesma língua. O setor ambiental entende de clima; o setor financeiro, de finanças. Precisamos construir essa tradução para encontrar soluções comuns.”
Segundo ela, esse esforço passa por transformar as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e os planos nacionais de adaptação climática em oportunidades concretas de investimento.
O Brasil, por exemplo, apresentou uma NDC considerada uma das mais robustas do mundo, com metas ambiciosas de redução de emissões, sete planos setoriais de mitigação e 16 planos de adaptação. “O desafio agora é tornar esses planos investíveis para o setor privado. Precisamos criar produtos financeiros e pipelines de projetos que transformem essas metas em oportunidades concretas de investimento”, afirmou.
Seguros entre os instrumentos da transição
Ao abordar os mecanismos capazes de acelerar a mobilização de capital, Ana Toni destacou que diversas ferramentas já estão disponíveis e podem ganhar escala nos próximos anos. Entre elas, citou explicitamente os seguros, os mercados de carbono, as cadeias produtivas sustentáveis e os instrumentos de blended finance, que combinam recursos públicos e privados.
“Já temos muitos instrumentos disponíveis. Temos seguros, mercados de carbono e diferentes mecanismos financeiros. O desafio agora é entender como ampliá-los e levá-los à escala necessária”, disse.
A executiva também ressaltou os avanços recentes na regulamentação internacional dos mercados de carbono, especialmente após a consolidação das regras dos Artigos 6.2 e 6.4 do Acordo de Paris.
Reduzir barreiras ao investimento
Outro tema central da apresentação foi a necessidade de enfrentar barreiras estruturais que ainda dificultam o fluxo de recursos para países em desenvolvimento. Entre elas, Ana Toni destacou o alto custo de capital, as dificuldades de acesso ao financiamento e a necessidade de tornar os recursos mais acessíveis aos países e setores que mais precisam investir em adaptação e descarbonização.
“Precisamos repensar as estruturas financeiras que utilizamos hoje. O custo de capital continua sendo uma das maiores barreiras para os países em desenvolvimento”, afirmou.
Ela lembrou que a agenda climática já deixou de ser um tema restrito à área ambiental e passou a integrar estratégias de desenvolvimento econômico, infraestrutura, agricultura e energia. “Não estamos falando apenas de descarbonização; estamos falando de crescimento verde e de desenvolvimento econômico.”
Ana Toni reforçou que a construção de uma economia resiliente e de baixo carbono dependerá da capacidade de governos e investidores trabalharem de forma coordenada. “Precisamos sair das nossas zonas de conforto, aprender a linguagem uns dos outros e construir soluções juntos. Somente assim conseguiremos mobilizar US$ 1,3 trilhão para os países em desenvolvimento na próxima década.”
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