Seguradoras voltam os olhos para motoristas de aplicativos e entregadores

Neste ano, coberturas específicas foram criadas e o aumento da proteção securitária deste público passou a integrar a agenda de prioridades do mercado

O setor segurador tem olhado para motoristas de aplicativo e entregadores de encomendas como oportunidade de crescimento. Neste ano, coberturas específicas foram criadas e o aumento da proteção securitária deste público passou a integrar a agenda de prioridades do mercado.

Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), o setor pode ter um papel estratégico em meio à ampliação do número de trabalhadores e dos desafios atrelados a isso, como a expansão da informalidade. “Seguros, planos de previdência e títulos de capitalização podem oferecer proteção financeira e social a esses trabalhadores, cobrindo riscos pessoais e patrimoniais e contribuindo para a construção de um futuro mais seguro”, diz a entidade em um documento divulgado em abril com as prioridades no debate junto aos poderes Executivo e Legislativo.

Apesar do potencial de crescimento, esse segmento ainda é pouco explorado pelo mercado segurador. A combinação entre maior exposição ao risco e o uso intensivo dos veículos fez com que motoristas de aplicativo e entregadores permanecessem, por muitos anos, à margem das coberturas tradicionais, com oferta restrita e custos mais elevados.

Segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1,7 milhão de pessoas atuavam por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços em 2024. Isso equivale a 1,9% da população ocupada no setor privado no mesmo período. O Sudeste é a região com o maior número de trabalhadores com esse perfil. Em 2024, eram 888 mil pessoas exercendo esse tipo de função, ante 759 mil em 2022.

De olho nesse contingente, a Azul Seguros e a Itaú Seguros, que são parte da Porto, passaram a aceitar, desde abril, motoristas de aplicativo. Jaime Soares, diretor executivo de Auto da Porto Seguro, diz que o principal desafio na aceitação deste público é o maior nível de exposição do veículo, o que muitas vezes resulta em valores mais elevados e dificulta a contratação do produto.

Com base em estudos feitos pela companhia, foi identificado que mais de 100 mil pessoas com perfil de motoristas de aplicativo procuraram o grupo em busca de cobertura ao longo de um ano. “Já tínhamos uma demanda reprimida e sabíamos do tamanho do potencial, mas não bastava apenas liberar o produto. Era preciso fazer uma adaptação para sermos competitivos”, diz Soares. Parte desse ajuste envolveu o controle de custo de peças e o uso da rede de assistência da própria Porto.

Os planos contam com diferentes níveis de cobertura, que vão desde proteção contra roubo e furto e assistência 24 horas até alternativas mais completas, com cobertura total. Também estão disponíveis planos com responsabilidade civil facultativa (RCF), que cobrem danos causados a terceiros.

Outro player que já se consolidou nesse mercado é a Suhai, que tem cobertura para carros e motos usados por trabalhadores em plataformas. “Historicamente, esse público era pouco atendido. As principais lacunas estavam na falta de produtos que considerassem o uso comercial do veículo e a alta frequência de utilização, já que os seguros tradicionais não cobriam sinistros ocorridos durante atividades profissionais em aplicativos, deixando motoristas e entregadores desprotegidos”, diz Jorge Martinez, vice-presidente de produtos e precificação da Suhai Seguradora.

Para acompanhar a expansão do mercado de mobilidade e delivery, foram criadas na Suhai coberturas para roubo e furto, perda total por colisão e outros danos ao veículo, além de responsabilidade civil para terceiros, com a possibilidade de contratação de assistência 24 horas, segundo o executivo.

A precificação leva em consideração fatores como frequência de uso do veículo, perfil do condutor, região de circulação e tipo de atividade desempenhada, seja transporte de passageiros ou entregas. Segundo a companhia, a maior exposição ao trânsito e a áreas de risco resulta em modelos mais personalizados.

A Suhai reconhece que a sinistralidade desse público tende a ser mais elevada em razão do uso intensivo dos veículos. No caso dos entregadores, especialmente os que utilizam motocicletas, a exposição ao risco é ainda maior em comparação aos motoristas de transporte de passageiros, devido à maior vulnerabilidade e à dinâmica mais ágil no trânsito.

Para a CNseg, o desenvolvimento de soluções acessíveis e adaptadas à realidade da economia digital pelo mercado segurador depende do avanço também na adoção de modelos flexíveis, como seguros intermitentes, que podem ser “ligados” ou “desligados” pelo segurado, e na adoção de processos simplificados.

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Rita Azevedo, Valor Econômico— São Paulo

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