Da advocacia aos grandes riscos: os 20 anos de Stephanie Zalcman no mercado de seguros

Da formação em Direito à liderança na Wiz Corporate, executiva relembra mudanças que marcaram sua trajetória e a transformação da corretagem de grandes riscos

Há carreiras que começam com um plano bastante definido. A de Stephanie Zalcman não foi assim. Formada em Direito, ela iniciou a vida profissional no escritório Leite, Tosto e Barros, enxergando o universo empresarial principalmente sob a ótica jurídica. Foi ao chegar ao no setor de seguros que descobriu uma combinação de conhecimentos que mudaria os rumos de sua trajetória.

“Eu costumo dizer que o seguro entrou na minha vida quase por acaso, mas deixou de ser acaso muito rapidamente. Sou formada em Direito e comecei minha carreira no Leite, Tosto e Barros, escritório de advocacia, ainda com uma visão jurídica do mundo corporativo. Quando fui para o mercado segurador e comecei a entender a lógica do risco, percebi que ali existia uma combinação que me encantava, porque seguro reúne técnica, Direito, finanças, estratégia, negociação e relacionamento”, conta.

Quase duas décadas depois, a Diretora Técnica e de Operações da Wiz Corporate acumulou experiências em diferentes posições do setor, passando por seguradoras e pela corretagem. Nesse percurso, concentrou sua atuação em grandes riscos e seguro garantia e percebeu, aos poucos, que o seguro havia deixado de ser apenas uma área de trabalho.

“Passei por seguradoras, depois fui para o lado da corretagem e, ao longo dessa trajetória, fui me especializando principalmente em grandes riscos e seguro garantia. Em algum momento percebi que já não estava apenas trabalhando com seguros, eu estava construindo uma carreira naquele mercado. Hoje, olhando para quase 20 anos de trajetória, tenho certeza de que foi uma escolha muito feliz, porque é um setor que continua me desafiando e me permitindo aprender todos os dias.”

 

Três momentos que mudaram a trajetória

Ao fazer uma retrospectiva, Stephanie identifica três viradas de chave. A primeira foi justamente a entrada definitiva no setor segurador, quando passou a utilizar sua formação jurídica de maneira ampla. A segunda veio com a passagem da seguradora para a corretagem, experiência que lhe permitiu conhecer o outro lado da mesa.

“Eu já havia vivido a subscrição na prática e entendido como uma seguradora pensa, precifica e decide assumir um risco. Então, sentar do outro lado da mesa mudou completamente minha perspectiva e me permitiu enxergar o seguro a partir da necessidade do cliente.”

A terceira mudança aconteceu em 2019, com sua chegada à Wiz Corporate. O momento representou uma nova escala de atuação, já que a executiva passou a participar da construção de uma operação Corporate praticamente desde a origem.

“Foi uma mudança de escala e de responsabilidade, porque deixei de pensar apenas em produto e colocação para pensar em estratégia, operação, pessoas, governança, tecnologia e crescimento. Talvez esta terceira virada resuma bem onde cheguei hoje, porque minha carreira deixou de ser somente uma trajetória técnica e passou também a ser uma trajetória de construção de negócio, e isso me definiu totalmente como profissional.”

A experiência construída nos dois lados da operação também ampliou sua visão sobre a corretagem. Nas grandes contas, segundo ela, a atuação passou a ir além da busca por capacidade e da negociação de preços.

 

Centro da gestão

Ao ingressar na Wiz Corporate, o desafio estava na construção de uma área de grandes contas com capacidade competitiva diante dos principais nomes do mercado, mantendo a profundidade da análise e a proximidade com o cliente.

É nesse cenário que ganha espaço a ideia de gestão. A contratação de uma apólice envolve entender o motivo da transferência, o que deve ser retido pela empresa, quais coberturas fazem sentido e de que maneira contratos e operações interferem no programa de seguros.

“Comprar seguro é contratar uma apólice única e exclusivamente, e fazer gestão de seguros é entender por que aquela empresa está transferindo determinado risco, quanto deve reter, quanto deve transferir, quais coberturas efetivamente precisa, como seus contratos impactam suas apólices e o que acontece quando ocorre um sinistro.”

Essa visão envolve diagnóstico, desenho de programas, análise de dados, prevenção, gerenciamento de exposições, colocação, negociação e acompanhamento de apólices, contratos e sinistros.

 

Cobertura Cyber

Entre os episódios que marcaram sua carreira está a estruturação do seguro cyber, em uma época em que o produto ainda dava os primeiros passos no Brasil. Faltavam dados históricos, havia pouca padronização e o próprio mercado ainda buscava compreender a dimensão daquela exposição.

“Foi um exercício enorme de construção e aprendizado, pois, quando começamos a trabalhar com cyber, havia pouca informação histórica, pouca padronização e uma percepção muito menor sobre a dimensão que aquele risco poderia alcançar, e não era possível analisar cyber exatamente como analisávamos riscos tradicionais, porque estávamos diante de uma exposição extremamente dinâmica.”

A experiência exigiu pesquisa, referências internacionais, proximidade com seguradoras e resseguradoras e, sobretudo, aprendizado contínuo. Também trouxe a necessidade de traduzir questões altamente técnicas em informações que fizessem sentido aos clientes.

Com o amadurecimento dessa cobertura, ficou mais claro que um incidente cibernético poderia atingir muito além da área de tecnologia. “Com o tempo, o mercado percebeu que cyber não era simplesmente um risco de tecnologia, era um risco de negócio, em que um ataque pode interromper uma operação, comprometer dados, gerar responsabilidade perante terceiros, causar perdas financeiras e afetar profundamente a reputação de uma companhia.”

A experiência deixou um princípio que continua presente em sua atuação:

“Participar deste processo me ensinou algo que carrego até hoje: em riscos emergentes, muitas vezes não existe uma resposta pronta, então nosso papel é fazer as perguntas certas antes que o problema aconteça.

 

O desafio de enxergar as conexões

Se antes diferentes exposições eram observadas em compartimentos quase independentes, hoje um evento pode desencadear outro e provocar efeitos em cadeia. Na avaliação de Stephanie, essa teia de interdependências ainda recebe pouca atenção nas estratégias das empresas brasileiras.

“Eu diria que o maior risco ainda subestimado é a interdependência entre os riscos. Durante muito tempo as empresas analisaram cyber, clima, cadeia de suprimentos, responsabilidade, pessoas e reputação como exposições separadas, mas hoje um único evento pode atravessar várias destas dimensões ao mesmo tempo.”

Uma falha tecnológica pode interromper uma operação, provocar perdas financeiras, gerar responsabilidade perante terceiros e atingir a reputação de uma companhia. Um evento climático, da mesma forma, pode afetar ativos, fornecedores, logística, contratos e receita.

“Por isso, acredito que o grande desafio de 2026 e do futuro do mercado, é abandonar a análise de riscos em silos. As empresas que estiverem mais preparadas serão aquelas capazes de compreender as correlações entre suas exposições e transformar esta visão em prevenção, continuidade de negócios e uma estratégia adequada de transferência de riscos.” 

 

Transformação feminina

Os quase 20 anos no setor também foram acompanhados por mudanças na presença das mulheres em áreas técnicas e posições de liderança. Coautora do livro Mulheres no Seguro, embaixadora da Sou Segura e associada da ONU Mulheres, Stephanie vivenciou esse processo de perto.

“Quando comecei, era muito comum entrar em reuniões técnicas e encontrar mesas quase exclusivamente masculinas, especialmente em grandes riscos, engenharia, garantia e posições de liderança.”

A entrada em ambientes predominantemente masculinos exigia, segundo ela, uma demonstração constante de conhecimento e preparo.

“Para uma mulher jovem, existia muitas vezes uma necessidade adicional de provar conhecimento antes mesmo de poder, participar da discussão em igualdade de condições e eu sempre escolhi responder a isso com preparo e consistência técnica.”

Dessa forma, o engajamento em ações direcionadas ao público feminino assumiu um sentido que transcende a jornada profissional. “Participar do livro Mulheres no Seguro e contribuir com iniciativas como a Sou Segura tem justamente este significado, não se tratando apenas de abrir espaço, mas de criar um mercado em que competência, diversidade de pensamento e capacidade de liderança sejam reconhecidas de maneira natural.”

Nesse processo, ela vê espaço de contribuição junto a quem está começando. “Talvez uma das coisas que mais me orgulhem nestes quase 20 anos seja perceber que hoje também posso ajudar outras mulheres a ocuparem espaços que, quando comecei, eram muito mais difíceis de alcançar.”

 

O que permanece

Depois de duas décadas, Stephanie resume seu momento profissional em uma palavra: construir. O significado está tanto na trajetória individual quanto na operação que ajudou a desenvolver na Wiz Corporate.

“Talvez eu ressaltasse que, depois de quase 20 anos de mercado, o que mais me motiva continua sendo construir. Tenho orgulho da minha trajetória individual, mas tenho ainda mais orgulho de olhar para aquilo que conseguimos construir coletivamente na Wiz Corporate, para as pessoas que cresceram conosco, para os clientes que confiamram em nosso trabalho e para uma operação que ganhou relevância no mercado sem perder sua essência técnica.”

Nesse percurso, alguns elementos permanecem centrais, independentemente das transformações vividas pelo setor.

“Eu acredito que sucesso em seguros é consequência de reputação construída ao longo do tempo e não existe atalho para conhecimento técnico, confiança e relacionamento. Apólices vencem todos os anos, negócios mudam, empresas se transformam, mas a credibilidade que você constrói permanece.”

Crédito foto:

Arquivo Pessoal

Crédito texto:

Fernanda Torres

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