A ampliação da oferta de seguros contra eventos climáticos depende cada vez mais da qualidade das informações disponíveis. Mapas de risco, imagens de satélite, registros meteorológicos e históricos de perdas ajudam as seguradoras a avaliar a exposição de diferentes regiões a enchentes, secas, incêndios e vendavais.
O uso desses recursos pode reduzir incertezas, apoiar medidas de prevenção e contribuir para o desenvolvimento de produtos destinados a locais ainda pouco protegidos. Isso não significa, porém, que haverá aceitação automática do risco, redução de preço ou cobertura disponível em todas as regiões.
Eventos extremos ampliam o desafio da proteção
Dados apresentados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) durante a COP30 mostram que o Brasil acumulou R$ 184 bilhões em perdas provocadas por 67 eventos climáticos significativos entre 2022 e 2024.
As enchentes no Rio Grande do Sul ajudam a dimensionar a lacuna de proteção. Dos prejuízos estimados em mais de R$ 100 bilhões, menos de 6% estavam cobertos por seguros. O episódio gerou mais de 57 mil avisos de sinistros e solicitações de indenização superiores a R$ 6 bilhões.
As perdas econômicas representam o total estimado dos danos, incluindo a parcela sem seguro. Já as solicitações de indenização estão relacionadas às coberturas contratadas e não correspondem necessariamente ao valor final pago, pois cada caso depende da análise dos danos, dos limites e das condições da apólice.
Em escala global, as catástrofes naturais provocaram perdas econômicas de US$ 220 bilhões em 2025. Desse total, US$ 107 bilhões estavam segurados, o equivalente a cerca de 49%, segundo o relatório mais recente da Swiss Re.
Mapas ajudam a diferenciar os riscos
Os mapas de risco combinam informações sobre relevo, ocupação urbana, cursos d’água, volume de chuva, histórico de alagamentos e concentração de bens. Com isso, as seguradoras conseguem identificar as áreas mais expostas e estimar a dimensão das possíveis perdas.
Essas informações também ajudam a diferenciar imóveis dentro de uma mesma região. Duas propriedades localizadas no mesmo município podem apresentar níveis distintos de exposição, dependendo da proximidade de rios, das condições de drenagem e das medidas de prevenção adotadas.
O uso dos mapas não significa que bairros ou municípios inteiros serão automaticamente excluídos da oferta de seguros. A avaliação pode considerar as características de cada imóvel ou atividade, as coberturas solicitadas e o histórico de ocorrências. A aceitação e as condições de contratação seguem os critérios técnicos e comerciais de cada seguradora.
Satélites acompanham mudanças no território
As imagens de satélite permitem acompanhar a expansão urbana, a extensão de áreas inundadas, os focos de incêndio, as condições das lavouras e os efeitos de secas prolongadas.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mantém catálogos de imagens e bases georreferenciadas que apoiam o monitoramento do território. Em 2025, durante sua liderança na Carta Internacional sobre Espaço e Grandes Desastres, o Instituto participou da gestão de 41 ativações em 29 países e disponibilizou 817 imagens.
No seguro rural, essas informações podem ajudar a identificar sinais de seca, excesso de chuva, geada ou incêndio. Nos seguros patrimoniais, contribuem para a análise de áreas sujeitas a inundações, deslizamentos e queimadas.
Após um evento, as imagens também podem auxiliar na avaliação da extensão dos danos. Elas funcionam como apoio e não substituem necessariamente documentos, fotografias, laudos, vistorias ou outras análises técnicas.
Inteligência artificial apoia a análise
A inteligência artificial pode cruzar imagens, séries meteorológicas, registros de sinistros e características dos bens segurados. Com isso, ajuda a identificar padrões e atualizar os modelos à medida que novos eventos são registrados.
A tecnologia, porém, não elimina a necessidade de supervisão humana. Os resultados dependem da qualidade e da atualização das informações utilizadas. Bases incompletas podem produzir distorções, especialmente em regiões com menor disponibilidade de dados.
O uso desses sistemas deve contar com governança, validação técnica e respeito à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), quando houver tratamento de dados pessoais. A inteligência artificial funciona como instrumento de apoio e não garante, por si só, aceitação da proposta, redução do preço ou pagamento de indenização.
Modelos transformam dados em estimativas de perdas
Os modelos de perdas simulam diferentes cenários para estimar a probabilidade de um evento, o volume de bens expostos e os possíveis prejuízos.
Uma seguradora pode calcular, por exemplo, quantos imóveis seriam atingidos por uma enchente de determinada intensidade. A análise ajuda a definir coberturas, limites de indenização, franquias, reservas e a necessidade de resseguro.
Dados mais precisos podem reduzir incertezas, mas não significam necessariamente seguros mais baratos. O preço também depende da intensidade do risco, do valor dos bens, dos custos de reparação, das coberturas contratadas e da capacidade de resseguro.
Em áreas de maior exposição, a oferta pode exigir medidas adicionais de prevenção. Também pode depender de investimentos em drenagem, contenção de encostas, manutenção, sistemas de alerta e infraestrutura mais resiliente.
Dados também apoiam novos produtos
O avanço das informações climáticas pode abrir espaço para produtos mais adequados às características de cada região. Entre as possibilidades estão coberturas específicas, alertas preventivos e seguros paramétricos.
No seguro paramétrico, o pagamento é vinculado a um indicador definido no contrato, como volume de chuva, temperatura, velocidade do vento ou nível de um rio. Para que o seguro seja acionado, o parâmetro, o período e o local de medição previstos na apólice precisam ser atendidos. A existência de prejuízo, sozinha, não garante o pagamento quando o gatilho estabelecido não é alcançado.
A incorporação dos riscos climáticos à gestão das seguradoras também faz parte da agenda regulatória. A Circular Susep nº 666/2022 estabeleceu requisitos de sustentabilidade e de gerenciamento dos riscos climáticos, ambientais e sociais. No seguro rural, a Resolução CNSP nº 485/2025 definiu diretrizes relacionadas a questões ambientais, sociais e climáticas.
Melhorar a qualidade dos dados não garante que todas as regiões ou todos os riscos terão cobertura disponível. As informações, no entanto, podem reduzir incertezas, apoiar a prevenção e contribuir para o desenvolvimento de soluções mais adequadas.
O seguro não impede a ocorrência de um evento climático. Quando contratado de acordo com as necessidades do segurado, porém, pode reduzir o impacto financeiro das perdas e ajudar famílias, empresas e produtores rurais a recuperar suas atividades.
Perguntas e respostas
Por que o seguro é importante diante do aumento dos eventos climáticos?
O seguro ajuda a reduzir o impacto financeiro de enchentes, vendavais, granizo e outros eventos previstos na apólice. Ele não impede que o desastre aconteça, mas oferece recursos para reparar danos e apoiar a retomada de famílias, empresas e produtores rurais.
Como os dados climáticos podem ampliar a proteção da população
Mapas de risco, satélites e modelos de perdas ajudam as seguradoras a conhecer melhor cada região e desenvolver coberturas mais adequadas. Informações mais precisas podem reduzir incertezas e abrir caminho para proteger locais ainda pouco atendidos, embora não garantam aceitação ou preços menores.
O que deve ser observado para contratar uma proteção adequada?
O consumidor deve avaliar os riscos aos quais está exposto e conferir se eles estão cobertos pela apólice. Também é importante verificar os limites de indenização, as franquias, os riscos excluídos e as medidas de prevenção exigidas. A orientação de uma seguradora ou de um corretor pode ajudar na escolha da proteção mais adequada.
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