Envelhecimento, tecnologia e custos desafiam sustentabilidade da saúde suplementar

Workshop da FenaSaúde para Jornalistas reuniu especialistas em discussão sobre acesso, qualidade, experiências internacionais e os efeitos da judicialização

O futuro da saúde suplementar passa por uma equação complexa: ampliar o acesso e preservar a qualidade do atendimento diante do envelhecimento da população, da incorporação de novas tecnologias, da elevação dos custos assistenciais e do avanço da judicialização. Esses foram alguns dos principais temas discutidos no Workshop FenaSaúde para Jornalistas, realizado em 25 de agosto.

A programação contou com uma apresentação de Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde, que trouxe um panorama sobre o mercado brasileiro. Em seguida, o economista André Médici, CEO da Universal Health Monitor, compartilhou experiências internacionais voltadas à gestão e ao financiamento da saúde. No encerramento, o juiz federal Clenio Schulze analisou a questão da judicialização, destacando os parâmetros definidos pela ADI 7.265.

Atualmente, 53,1 milhões de brasileiros possuem planos médico-hospitalares, segundo dados da ANS referentes a junho de 2026. O número representa uma cobertura próxima de 25% da população, índice que permanece relativamente estável há mais de uma década. A projeção apresentada durante o workshop indica crescimento entre 1,1% e 2% ao longo de 2026, levando o mercado a encerrar o ano entre 53,5 milhões e 54 milhões de beneficiários.

Além da dimensão assistencial, os números mostram o peso econômico da saúde suplementar. O setor representa 28% dos gastos em saúde no país e 2,70% do PIB. São cerca de 189 mil estabelecimentos de saúde que atendem beneficiários de planos, além de aproximadamente 470 mil médicos. A atividade também responde por 5 milhões de empregos diretos e indiretos.

 

Segmento que movimenta toda a cadeia

Na avaliação de Bruno Sobral, discutir a saúde suplementar exige olhar além das operadoras. O setor sustenta uma ampla cadeia de hospitais, laboratórios, profissionais e demais prestadores. “Temos 189 mil estabelecimentos atendendo planos e centenas de milhares de médicos. Os grandes hospitais privados têm uma parcela muito relevante de suas receitas vinculada aos planos de saúde, assim como os grandes laboratórios. O plano de saúde é hoje um grande organizador e financiador desse sistema”, afirmou.

O executivo também ressaltou a necessidade do diálogo entre empresas, reguladores, consumidores e a imprensa. De acordo com ele, é essencial que a avaliação do setor leve em conta diversas perspectivas, uma vez que se trata de um tema que envolve pessoas em situações de vulnerabilidade, em momentos de vulnerabilidade.

“É importante que, em todo o debate, se olhem todos os ângulos. Temos o lado da operadora, o beneficiário, o regulador e o consumidor. Estamos tratando de pessoas em momentos de fragilidade, e isso traz uma responsabilidade maior”, disse.

Sobral também chamou atenção para a percepção sobre a satisfação dos beneficiários. Segundo os dados apresentados no encontro, a maioria demonstra interesse em manter a contratação do plano e reconhece valor na assistência recebida, embora casos individuais de negativa ou dificuldade de acesso possam ganhar maior repercussão.

 

Pressão sobre custos é global

O desafio da sustentabilidade transcende as fronteiras do Brasil. Evidenciado pelas experiências internacionais apresentadas por André Médici, diversos países lidam com pressões análogas, impulsionadas pelo crescimento da demanda, escassez de mão de obra qualificada, orçamentos restritos e custos de novas tecnologias.

“O mundo está cada vez mais exigente. As pessoas querem acesso mais rápido e qualidade, e têm necessidades de serem atendidas de forma mais imediata. Ao mesmo tempo, existe uma escassez de profissionais de saúde em vários países, com pressão sobre salários e custos administrativos”, explicou.

O envelhecimento populacional aparece como outro fator de pressão. À medida que a população envelhece, aumenta a utilização dos serviços de saúde e, consequentemente, o volume de recursos necessário à assistência. Novos medicamentos, equipamentos e procedimentos podem ampliar as possibilidades de tratamento, mas exigem avaliação sobre efetividade, segurança e custo.

Médici defendeu que os sistemas de saúde avancem na análise de evidências e na avaliação econômica das tecnologias. “Muitas vezes incorporamos uma tecnologia e não desincorporamos aquelas que ficaram obsoletas. Com isso, passamos a duplicar recursos”, observou.

 

O que outros países ensinam

A experiência internacional mostra que não existe um único modelo capaz de responder a todas as necessidades. Na Inglaterra, por exemplo, o sistema público utiliza mecanismos de compra de serviços e possui uma atenção primária estruturada como porta de entrada.

No Brasil, André Médici teve papel relevante no planejamento, desenvolvimento e implementação do Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, atua como consultor internacional de organismos multilaterais, como Banco Mundial, BID e DESA-ONU, além de instituições e empresas globais da área de medicamentos e entidades brasileiras do setor de saúde suplementar.

Ao abordar o modelo inglês, Médici destacou a força da atenção primária na condição de porta de entrada do sistema, com coordenação do cuidado e gestão regional. Também ressaltou o desenvolvimento da compra estratégica de serviços no setor público britânico, destacando esse mecanismo enquanto contribuição relevante ao debate em torno do bem-estar.

Considerado referência no setor, Israel recebeu citações pelo trabalho conjunto entre planos, prestadores e sistemas de informação. A experiência reúne cobertura universal, integração de dados e uma gestão orientada à população.

Outra discussão importante envolve os modelos de remuneração dos prestadores. O tradicional pagamento por serviço, conhecido como fee-for-service, tende a estimular maior utilização de procedimentos. Por isso, diversos países vêm testando modelos associados a resultados e qualidade.

“Não existe um modelo de pagamento que resolva tudo. A experiência internacional aponta para a necessidade de modelos híbridos. Em determinadas realidades, o fee-for-service é necessário; em outras, o pagamento por resultados pode contribuir com a redução de custos e a melhoria da qualidade”, afirmou.

 

Judicialização entra no debate

A terceira apresentação trouxe o aspecto jurídico da sustentabilidade. O juiz federal Clenio Schulze discutiu a judicialização e os efeitos da ADI 7.265 sobre decisões envolvendo produtos, medicamentos, serviços e tecnologias que não estão incorporados à cobertura da saúde suplementar.

Entre os pontos está a necessidade da avaliação técnica e da decisão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) antes de uma determinação judicial.

Segundo Schulze, a decisão do Supremo Tribunal Federal estabeleceu parâmetros mais claros para a análise desses casos. A prescrição médica, a inexistência de alternativa terapêutica, o nível de evidência científica e o registro na Anvisa estão entre os elementos que precisam ser considerados.

“Eu preciso agora analisar a decisão da ANS. Se a agência disser que não há evidência, isso precisa ser considerado. O Supremo passou a dar maior peso à decisão da agência reguladora”, explicou.

Outro elemento destacado foi a atuação do NatJus, núcleo de apoio técnico ao Judiciário. Em determinadas situações, o magistrado deverá recorrer ao órgão para obter uma análise especializada sobre a existência de evidências científicas, efetividade e outros aspectos relacionados à tecnologia ou tratamento solicitado.

“O NatJus vai devolver uma nota técnica que informa se existe evidência científica, qual é o nível dessa evidência e outros aspectos relevantes. É um órgão que reúne profissionais da saúde com conhecimento técnico para avaliar os desfechos e a utilização daquela terapia”, afirmou Schulze.

 

Visão Conjunta

As discussões apresentadas no workshop mostram que a sustentabilidade do bem-estar não depende de um único fator. O crescimento da demanda, o envelhecimento, a inovação tecnológica, os modelos de remuneração, a disponibilidade de profissionais e as decisões judiciais estão interligados.

O mercado brasileiro abrange mais de 53 milhões de beneficiários e dinamiza uma cadeia extensa de serviços. Ao mesmo tempo, apresenta uma taxa de cobertura próxima de um quarto da população, indicando espaço para expansão, mas também salientando a necessidade de debate.

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