Durante muito tempo, o seguro pecuário foi visto apenas como uma proteção financeira contra a morte de animais. Hoje, esse cenário mudou. Em uma pecuária marcada por rebanhos de alto valor, eventos climáticos frequentes, exigências sanitárias e operações profissionalizadas, o seguro ocupa um espaço estratégico na gestão das propriedades rurais.
A mudança acompanha a própria evolução do agronegócio brasileiro. A atividade incorporou tecnologia, ampliou sua integração com mercados internacionais e passou a conviver com riscos mais complexos, exigindo uma visão mais ampla sobre proteção patrimonial e continuidade operacional.
Para Talita Ferrari, diretora de Negócios da Wiz Corporate, o seguro pecuário acompanha essa transformação. “O seguro pecuário deixou de ser só indenização por morte de animal e virou uma ferramenta de continuidade de negócio. Acompanhou a profissionalização da pecuária: rebanhos mais valorizados, operações mais tecnificadas e cadeias mais integradas globalmente. Hoje a cobertura considera sistema de produção, categoria de animal e perfil de risco de forma muito mais sofisticada do que há uma década.”
Os desafios enfrentados pelos pecuaristas também se multiplicaram. Eventos climáticos extremos, surtos sanitários, incêndios, acidentes durante o transporte e oscilações operacionais podem comprometer não apenas parte do rebanho, mas toda a sustentabilidade financeira da atividade.
“O que ele faz é proteger o fluxo de caixa: quando o evento acontece, o produtor consegue recompor o rebanho e manter a operação de pé, em vez de absorver o prejuízo sozinho e comprometer a atividade inteira.“, afirma Talita.
Apesar dessa evolução, a contratação ainda é limitada no Brasil. Dados do setor mostram que o seguro pecuário arrecadou R$ 187,6 milhões entre janeiro e outubro de 2025, crescimento de 24% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, apenas cerca de 3% do rebanho bovino nacional possui algum tipo de proteção securitária.
Na avaliação da executiva, esse percentual reflete um desafio cultural. “O produtor ainda associa o seguro rural apenas à lavoura, acredita que o seguro pecuário tem custo elevado e, historicamente, prefere absorver o risco a transferi-lo. Na prática, muitos só procuram proteção depois de enfrentar um prejuízo, quando ela deveria fazer parte do planejamento financeiro desde o início.“
Nesse contexto, o papel do corretor também vem mudando. Mais do que apresentar coberturas, o profissional passou a atuar como consultor na identificação das vulnerabilidades da operação.
A ampliação da proteção acompanha essa nova abordagem. Além do rebanho, hoje é possível contratar coberturas para máquinas agrícolas, benfeitorias, currais, cercas, silos, estoques de insumos, transporte de animais, responsabilidade civil e acidentes envolvendo colaboradores. Em operações de maior porte, entram ainda soluções como seguros ambientais, D&O, garantia e produtos paramétricos voltados a riscos climáticos específicos.
“A visão hoje é integrada. Não faz mais sentido pensar apenas na proteção do rebanho de forma isolada“, ressalta.
O desafio dos próximos anos não consiste somente na quantidade de apólices contratadas, mas em estabelecer de forma consistente uma cultura de gestão de riscos no setor da pecuária brasileira.
” A pecuária está cada vez mais exposta a clima, custo de produção e exigência sanitária. Quem investe em prevenção, tecnologia e bem-estar animal chega ao mercado segurador com um perfil de risco melhor — e isso se traduz em condição competitiva de contratação. O seguro vai continuar essencial, mas o diferencial de verdade vai estar em combinar gestão de risco, dado e tecnologia com a solução securitária certa.“
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