Super El Niño aumenta alerta para o agro brasileiro e reforça importância do Seguro Rural

Fenômeno deve provocar impactos diferentes entre as regiões do País, com previsão de mais chuva no Sul e cenário mais seco e quente no Norte e Nordeste; dados da CNseg mostram movimentação do Seguro Rural nos estados da região
Juliano Patiu, representante do Sindicato das Seguradoras Norte e Nordeste (Sindsegnne).

 

O avanço do fenômeno El Niño, com possibilidade de configuração como um dos eventos mais intensos já registrados, coloca o agronegócio brasileiro diante de um cenário de maior atenção aos riscos climáticos. As previsões mais recentes dos órgãos oficiais indicam mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno apresente intensidade muito forte no trimestre entre setembro e novembro, com permanência prevista pelo menos até o início de 2027.

Os efeitos, no entanto, não devem ser iguais em todo o País. Enquanto a Região Sul tem maior probabilidade de registrar chuvas acima da média, áreas do Norte, Nordeste e parte do Brasil Central devem enfrentar um cenário mais seco, acompanhado de temperaturas acima da média. A combinação pode aumentar o déficit hídrico, afetar pastagens e culturas agrícolas e elevar o risco de queimadas e incêndios.

Para o setor agropecuário, a perspectiva reforça a necessidade de planejamento e de instrumentos capazes de reduzir os impactos financeiros provocados por eventos climáticos adversos. Entre eles está o Seguro Rural, que permite ao produtor proteger parte do investimento realizado na atividade e ter maior previsibilidade diante de perdas provocadas por fenômenos como seca, excesso de chuva, granizo e outros eventos previstos nas diferentes modalidades de cobertura.

“O produtor rural trabalha com uma variável que não está sob seu controle: o clima. Ele pode planejar o plantio, investir em tecnologia, melhorar a produtividade e adotar medidas de prevenção, mas não consegue controlar uma seca prolongada ou um excesso de chuva. Por isso, o Seguro Rural precisa ser encarado como uma ferramenta de gestão de risco e de sustentabilidade da própria atividade”, afirma Juliano Patiu, representante do Sindicato das Seguradoras Norte e Nordeste (Sindsegnne).

Segundo Patiu, em um cenário de maior frequência e intensidade dos eventos climáticos, ampliar a proteção securitária é importante não apenas para o produtor individualmente, mas para toda a cadeia do agronegócio. “Quando uma perda climática acontece, o impacto não fica restrito à propriedade. Ele pode comprometer a renda do produtor, sua capacidade de honrar compromissos financeiros e o planejamento da próxima safra, além de gerar reflexos em toda a cadeia. O seguro ajuda a criar uma camada de proteção financeira para que o produtor consiga atravessar esses momentos e retomar sua atividade”, explica.

A preocupação ganha ainda mais relevância diante do comportamento regional esperado para os próximos meses. De acordo com o Painel El Niño 2026-2027, coordenado por órgãos como INMET, INPE, ANA e Cemaden, a previsão para setembro, outubro e novembro aponta maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul e em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Já o Norte e o Nordeste, além de áreas do Brasil Central e do Sudeste, apresentam maior probabilidade de chuvas abaixo da média. As temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o País.

No Nordeste, o cenário merece atenção especial. A previsão de menor volume de chuvas e temperaturas elevadas pode comprometer cultivos em desenvolvimento e reduzir a disponibilidade hídrica para pastagens e pecuária. A combinação entre calor e menor precipitação também aumenta a necessidade de planejamento para o próximo ciclo agrícola.

 

Seguro Rural movimenta milhões nos estados do Norte e Nordeste

Os dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), referentes ao primeiro semestre de 2026, mostram que o Seguro Rural já possui participação relevante na economia dos estados do Norte e Nordeste. Em Pernambuco, a arrecadação chegou a R$ 21,25 milhões no período, crescimento de 11,2% em relação ao mesmo período anterior. As indenizações somaram R$ 1,32 milhão.

No Pará, a arrecadação alcançou R$ 80,86 milhões, mesmo com uma retração de 17,8%. O estado registrou R$ 6,63 milhões em indenizações, alta de 8,1%. Em Rondônia, foram R$ 80,59 milhões arrecadados, com R$ 16,40 milhões em indenizações, crescimento de 47,5%.
Entre os estados que apresentaram aumento expressivo nas indenizações está o Amazonas, onde o valor chegou a R$ 820 mil, alta de 79,5%, enquanto a arrecadação cresceu 13,6%, alcançando R$ 2,06 milhões. Em Roraima, as indenizações somaram R$ 770 mil, avanço de 73,5%, enquanto a arrecadação chegou a R$ 6,96 milhões.

O Amapá apresentou o maior crescimento proporcional da arrecadação entre os estados analisados, de 337,8%, chegando a R$ 1,78 milhão. As indenizações ficaram em R$ 80 mil no primeiro semestre. No Ceará, a arrecadação do Seguro Rural alcançou R$ 16,87 milhões, crescimento de 9,5%. Já Alagoas registrou R$ 9,20 milhões em arrecadação e R$ 510 mil em indenizações, com aumento de 177,6% no valor indenizado.

Para o representante do Sindsegnne, os números reforçam que o Seguro Rural precisa ser tratado como parte da estratégia de proteção do agronegócio, especialmente diante da maior imprevisibilidade climática.
“O volume de indenizações observado em alguns mercados demonstra que estamos diante de riscos que efetivamente podem produzir impactos financeiros relevantes. Esses números, quando analisados em conjunto com a evolução da arrecadação e da exposição segurada, reforçam a importância de mecanismos de proteção financeira para a atividade rural”, afirma Patiu.

Na avaliação de Patiu, o cenário climático reforça a necessidade de mudar a percepção sobre o Seguro Rural. “Mais do que uma despesa, o seguro deve ser visto como uma ferramenta de planejamento. Em uma atividade tão dependente das condições climáticas, proteger o investimento realizado na produção significa também proteger a continuidade do negócio e a capacidade de o produtor permanecer produzindo depois de um evento adverso”, completa.

Patiu alerta ainda que a proteção securitária não se resume à contratação de uma apólice. “O produtor precisa compreender quais riscos estão efetivamente cobertos, quais são os limites de indenização, franquias, períodos de cobertura e demais condições do contrato. Em um cenário de eventos climáticos mais severos, a adequação da cobertura ao perfil da atividade econômica que está sendo desenvolvida e à exposição ao risco de cada região torna-se ainda mais relevante. O seguro não substitui as medidas de prevenção e de gestão adotadas pelo produtor rural, mas é um instrumento complementar. Quanto melhor o produtor conhecer sua exposição e adotar medidas para mitigá-la, mais estruturada tende a ser sua estratégia de proteção junto ao seguro contratado”, finaliza.

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