IA para corretores: o que já é verdade e o que (ainda) é mito

Artigo é de autoria do empreendedor Nicolas Galvão

Oitenta por cento das seguradoras brasileiras já implementaram inteligência artificial em alguma parte da operação. O dado é de pesquisa da CNseg. A mesma pesquisa traz um segundo número, bem menos comentado: 84% dessas empresas ganharam menos de 1% de receita com isso. 

Guarde esses dois números. Eles contam a história inteira deste texto. 

A IA chegou ao seguro. Está na análise de risco, na precificação, no combate à fraude, no atendimento. O que ela ainda não fez foi chegar ao resultado. Existe uma distância enorme entre adotar tecnologia e transformar uma operação, e o mercado inteiro está exatamente nesse meio de caminho. 

Eu conheço essa distância de perto. Fundei a Delta Global, uma empresa de tecnologia para este mercado, e vivi de dentro a diferença entre a demonstração que encanta a diretoria e a ferramenta que precisa funcionar às seis da tarde de uma sexta-feira, com o cliente parado na estrada. É com essa régua que proponho separar o que já é verdade do que ainda é mito na IA para corretores.  

 

“A IA vai substituir o corretor.” Mito. 

A IA substitui tarefa. Não substitui confiança. O cliente com o carro batido no acostamento não quer conversar com um modelo de linguagem, quer alguém que resolva. Seguro é uma promessa, e promessa se compra de quem se confia. 

Mas esse mito carrega uma verdade desconfortável. A IA substitui, sim, o corretor que só cota e envia PDF. Se o seu dia é copiar dados de um sistema para outro, esse dia está com prazo de validade. O que a tecnologia elimina é o trabalho mecânico. Sobra o trabalho humano, que sempre foi o mais valioso. 

 

“As seguradoras já usam IA em tudo.” Verdade. 

A Porto e outras cias já analisam fotos de danos com inteligência artificial para acelerar sinistros. As grandes companhias usam algoritmos para precificar, subscrever e detectar fraude. O ponto que interessa ao corretor é outro: a seguradora do outro lado da mesa já opera com IA. Negociar de forma analógica com uma máquina do outro lado é jogar em desvantagem. Não por falta de talento. Por assimetria de ferramenta. 

 

“Quem adotou IA já está ganhando dinheiro com ela.” Ainda é mito. 

Volto ao número do início: 84% ganharam menos de 1% de receita. A adoção virou estatística. O resultado, ainda não. E isso deveria tranquilizar o corretor que se

sente atrasado. Você não perdeu o trem. O trem está na estação, com quase todo mundo dentro ainda procurando o assento. 

A janela real é essa. A tecnologia ficou está ficando acessível antes de a maioria aprender a usá-la bem. Quem desenvolver método agora compete de igual para igual com estrutura grande. 

 

“IA é coisa de corretora grande.” Mito. 

Pesquisa da PwC em 48 países mostra que 71% dos profissionais brasileiros usaram alguma ferramenta de IA nos últimos doze meses. A média mundial é 54%. O Brasil está na frente da adoção individual. Ferramentas de atendimento, transcrição de ligações e leitura de apólices custam hoje menos que uma mensalidade de um software de gestão. O que separa a corretora pequena da grande deixou de ser o acesso. Passou a ser o método. 

 

“IA atendendo cliente 24 horas por dia.” Já é verdade. 

Esse é o caso de uso com retorno mais rápido. Corretoras brasileiras já usam IA no WhatsApp para o primeiro atendimento, para triagem de urgência e para monitorar a própria qualidade: onde a resposta demora, onde o contato falha, onde a venda se perde. O cliente pergunta às dez da noite e recebe resposta às dez da noite. O corretor chega de manhã com a conversa organizada e o contexto pronto. 

 

“IA fechando venda sozinha.” Ainda é mito. 

Ela qualifica o cliente, agenda a conversa, prepara o resumo do cliente. O fechamento consultivo continua humano. Quem promete agente de IA vendendo apólice no piloto automático está vendendo demonstração, não operação. Talvez um dia. Hoje, não. 

 

“IA cuidando da renovação e da carteira.” Já é verdade. E é onde está o dinheiro. 

Cruzar a carteira e encontrar o cliente de auto que não tem residencial. Avisar o vencimento antes do concorrente. Personalizar a abordagem pelo histórico. Nada disso é futurismo. É software disponível hoje, por assinatura. E repare: isso é vender continuidade, atenção e qualidade em escala, que foi exatamente onde a minha última coluna terminou. A tecnologia não muda aquela tese. Ela viabiliza aquela tese. 

 

Por onde começar 

Três passos, em ordem. Primeiro, automatize o primeiro atendimento no WhatsApp. O ganho aparece em semanas. Segundo, coloque a IA para ler a sua carteira e apontar renovações próximas e lacunas de cobertura. Terceiro, use transcrição e resumo automático nas suas reuniões, e o histórico de cada cliente vira um ativo da corretora. 

Nenhum dos três exige programador, projeto ou orçamento de banco. Exigem decisão. 

 

A pergunta certa 

A pergunta errada é a que mais se ouve por aí: será que a IA vai me substituir? A pergunta certa é outra. O que eu faço com as horas que ela me devolve? 

Quem usar essas horas para visitar cliente, entender risco e estar presente no dia do sinistro vai descobrir que a tecnologia não ameaça o corretor. Ela financia justamente a parte do trabalho que máquina nenhuma faz. 

O mercado se concentrou, escrevi na última coluna. As ferramentas se democratizaram, mostrei nesta. E existe um terceiro movimento em curso, que quase nenhum corretor percebeu ainda: novas linhas de receita se abrindo bem debaixo do balcão.  

É sobre isso a próxima conversa. 

Crédito foto:

Filipe Tedesco

Crédito texto:

Nicolas Galvão

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