A inovação precisa deixar de ser responsabilidade de áreas específicas e passar a fazer parte da rotina de todos os profissionais. Essa foi uma das provocações de César Saut, vice-presidente da Icatu e presidente da Rio Grande Seguros, na palestra de abertura da 6ª Maratona da Inovação em Seguros, promovida pelo JRS nesta quinta-feira, 29 de outubro, no Vista Pontal, em Porto Alegre. Durante a apresentação, o executivo abordou propósito, inteligência artificial, colaboração e os desafios para ampliar a presença do seguro na sociedade, com questionamentos sobre as práticas e prioridades do setor.
Com base em aprendizados de palestras que acompanhou durante uma imersão na Finlândia, Saut relacionou os temas comunicação, inovação e poder das conexões à trajetória do seguro e às transformações que exigem novas posturas das empresas. Para ele, o setor se afastou de sua finalidade social ao priorizar a rentabilidade em detrimento das necessidades das pessoas.
“O propósito do seguro não é tu ganhar dinheiro. O propósito é atender a uma necessidade social e tu também precisa ganhar dinheiro”, afirmou.
Ao apresentar números das operações da Icatu, o executivo informou que a companhia registrou faturamento de R$ 2,2 bilhões em seguros de vida até agosto. Também destacou que a companhia detém 40% de participação no mercado do Rio Grande do Sul. , considerando as operações mencionadas durante a apresentação. Saut destacou ainda a atuação da Rio Grande Seguros, com faturamento de R$ 800 milhões em seguros de vida. Os números serviram de ponto de partida para uma reflexão sobre o potencial de crescimento da atividade no país.
Saut questionou a penetração do seguro na economia brasileira, que, segundo o dado apresentado por ele, corresponde a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB). Na avaliação do executivo, é necessário olhar para além dos indicadores de crescimento e identificar quanto da expansão corresponde à contratação efetiva de proteção. Como exemplo, propôs analisar o desempenho do seguro de vida descontando o efeito das comissões e, em outra comparação, desconsiderando o seguro prestamista.
“Vamos nos desenganar. E vamos ver qual é o tamanho do mercado efetivamente que está comprando o teu produto”, provocou.
O consumidor no centro da inovação
Outro ponto central da apresentação foi a mudança no comportamento dos consumidores. Saut observou que o acesso à informação ampliou a capacidade de comparar produtos e buscar alternativas, o que exige das empresas uma revisão da forma como desenvolvem e oferecem suas soluções.
Para ele, ainda há organizações que criam produtos a partir de seus próprios interesses, sem considerar suficientemente as necessidades de quem contrata. A mudança de perspectiva, defendeu, pode contribuir tanto para a ampliação da proteção quanto para melhores resultados financeiros.
Saut defendeu que desenvolver produtos voltados às necessidades dos consumidores, em vez de priorizar os interesses das próprias empresas, também pode gerar melhores resultados financeiros.
“Se eu parar de fazer produto para mim e fazer produto para ti, eu vou ganhar muito dinheiro”, afirmou.
A inteligência artificial também ganhou destaque entre os temas abordados. Saut defendeu que a tecnologia precisa integrar as atividades cotidianas, independentemente da área de atuação. Na visão do executivo, a inovação não se limita a grandes projetos ou rupturas, mas depende de melhorias constantes, experimentação e disposição para rever processos.
Saut destacou que o uso da inteligência artificial se tornou essencial para ampliar as capacidades dos profissionais e acompanhar as transformações do mercado.
O palestrante também incentivou os profissionais a estabelecer metas ambiciosas antes de avaliar as possibilidades de execução. Ao compartilhar sua experiência na Icatu, explicou que costuma partir da pergunta sobre como alcançar resultados maiores para, em seguida, identificar caminhos viáveis. A proposta é evitar que as limitações iniciais impeçam a busca por novas oportunidades.
Conexões para ampliar oportunidades
A colaboração entre empresas apareceu como outro caminho para desenvolver o mercado. Em vez de concentrar esforços na disputa por negócios já existentes, Saut propôs que concorrentes e parceiros identifiquem competências complementares e construam iniciativas em conjunto.
“Se a penetração de seguro é tão baixa, não pode ser eu mais tu para tentar chegar no mercado?”, questionou.
A reflexão também incluiu o cooperativismo, citado pelo executivo como exemplo de atuação baseada na união de esforços e na centralidade das pessoas. Ao abordar a possibilidade de ampliação da presença das cooperativas no mercado de seguros, Saut levantou preocupações com eventuais diferenças tributárias entre os modelos de atuação. Para ele, as empresas precisam compreender as mudanças nas condições de concorrência e responder com maior eficiência, em vez de se colocarem na posição de vítimas das circunstâncias.
Saut defendeu ainda estruturas organizacionais mais integradas, nas quais as diferentes áreas compartilhem responsabilidades pela experiência do consumidor. Segundo ele, as empresas precisam deixar de funcionar como organizações fragmentadas e passar a atuar como organismos interdependentes, em que o desempenho de cada área influencia a entrega final ao cliente.
Ao abordar o desenvolvimento de equipes, o executivo valorizou a experimentação e o aprendizado com os erros. Defendeu que a inovação deixe de ficar restrita a departamentos específicos e se torne parte da cultura das empresas, com ambientes que estimulem as pessoas a assumir desafios, compartilhar experiências e desenvolver novas ideias.
A necessidade de mudança também passa pela postura dos profissionais diante das dificuldades. Para Saut, os desafios econômicos, tecnológicos e sociais exigem uma atuação mais proativa, sem esperar que as condições externas se tornem favoráveis.
“Tu não é espectador da tua vida. Tu é protagonista da tua vida”, afirmou.
Ao encerrar a palestra, Saut reforçou a importância de o mercado segurador recuperar seu propósito e ampliar sua participação no desenvolvimento econômico do país.
“Hoje, nós não somos protagonistas no desenvolvimento econômico desse país, mas porque a gente não quis e se perdeu no meio do caminho. É hora de nós nos reencontrarmos”, declarou.
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