O enfrentamento ao feminicídio começa muito antes da violência chegar ao seu estágio mais extremo. Reconhecer comportamentos de controle, isolamento, violência psicológica, patrimonial e sexual, fortalecer redes de apoio e ampliar o acesso aos mecanismos de proteção estiveram entre as principais mensagens do Café do Clube de Seguros de Vida e Benefícios do Rio Grande do Sul (CVG RS), realizado nesta quarta-feira (26), no Sindseg RS, em Porto Alegre.
O encontro reuniu profissionais do mercado segurador para uma palestra da defensora pública Bibiana Veríssimo Bernardes e marcou também a distribuição da cartilha de combate à violência contra a mulher desenvolvida pelo escritório CJosias & Ferrer em parceria com o CVG RS. Na abertura, o presidente do CVG RS, Gilberto Bittencourt, destacou a relação entre a própria atuação da entidade e a necessidade de trazer o assunto para o mercado. “O CVG é uma entidade preocupada com o seguro de vida, com a vida e com as pessoas. Não poderia deixar de trazer um tema como esse”, afirmou, ao agradecer a presença do público.
“Esse problema é nosso”
Ao apresentar a cartilha, Juliano Ferrer, advogado e sócio do CJosias & Ferrer, contou que a iniciativa nasceu de uma provocação da Professora Jane Manssur sobre a necessidade de fazer mais pelas mulheres e de transformar o posicionamento em uma ação prática. “Temos uma decisão a tomar: ou fazemos alguma coisa ou não fazemos nada. Podemos olhar para a nossa realidade e pensar que esse problema não nos atinge. Nós não acreditamos nisso. Esse problema é meu, é nosso, é de todo mundo”, afirmou.
Ferrer ressaltou especialmente a responsabilidade dos homens na transformação desse cenário. “Principalmente nós, homens, temos que ser vetor do fim dessa chaga. Se conseguirmos, depois do evento de hoje, ajudar a salvar uma mulher, já teremos chegado ao nosso objetivo”, destacou.
A cartilha apresenta diferentes manifestações da violência contra a mulher, explica o ciclo da violência doméstica, aborda medidas protetivas e reúne orientações sobre como procurar ajuda e acolher uma vítima.
Feminicídio é a ponta do iceberg
Durante a palestra, Bibiana chamou atenção para o caráter estrutural da violência contra a mulher. Segundo a defensora pública, o Brasil possui uma legislação rigorosa e mecanismos de punição relevantes, mas isso, isoladamente, não é suficiente para impedir os crimes. “O feminicídio não é uma questão apenas de segurança pública. É uma questão que vai muito além, é estrutural. Não é porque temos uma pena de 20 a 40 anos que os crimes no contexto de violência doméstica deixam de acontecer”, afirmou.
O Rio Grande do Sul contabiliza 53 feminicídios em 2026 até o momento. Entre os autores que permaneceram vivos após os crimes, apenas dois não estariam presos. Para Bibiana, os números mostram justamente que o enfrentamento precisa acontecer antes. “O feminicídio é o resultado, é a ponta do iceberg. Existe toda uma base. A violência dificilmente começa com um soco ou com uma agressão física. Se conseguirmos identificar os sinais no início, talvez consigamos interromper esse ciclo”, explicou.
Ela lembrou que comportamentos ainda naturalizados em relações afetivas podem representar os primeiros sinais de violência: controlar as roupas utilizadas pela mulher, afastá-la de amigos e familiares, exigir localização constantemente, controlar suas finanças ou desqualificar sua percepção e suas opiniões. “Ciúme não é amor, ciúme é posse”, resumiu.
Ciclo da violência dificulta rompimento
Outro ponto abordado foi a dificuldade enfrentada pelas mulheres para romper relações abusivas. A defensora explicou que a violência doméstica frequentemente ocorre em ciclos que passam por momentos de tensão, explosão e, posteriormente, uma fase de reconciliação ou “lua de mel”, até que o processo recomece.
Dependência financeira, vínculos familiares, filhos em comum, medo, isolamento e a própria construção emocional da relação ajudam a explicar por que uma vítima pode permanecer ou retornar ao relacionamento. “É muito difícil pensar que o homem que você escolheu para a vida, muitas vezes o pai dos seus filhos, pode ser um agressor. Por isso, não podemos julgar a vítima. Quando julgamos, nós a revitimizamos”, afirmou.
Bibiana destacou ainda a importância da autonomia financeira das mulheres como um dos fatores que podem contribuir para o rompimento de ciclos de violência.
Medidas protetivas salvam vidas
As medidas protetivas ganharam atenção especial durante a apresentação. Segundo Bibiana, o Estado possui atualmente cerca de 16 mil medidas protetivas ativas, sendo aproximadamente 6 mil somente em Porto Alegre.
Ela informou ainda que cerca de 1,5 mil mulheres são acompanhadas por dispositivos de monitoramento, enquanto aproximadamente 1,5 mil homens utilizam tornozeleira eletrônica em situações relacionadas à violência doméstica. “Desde a implementação do monitoramento eletrônico nesses casos, não tivemos feminicídio entre as mulheres inseridas nesse sistema. Medidas protetivas salvam vidas”, ressaltou.
A defensora lembrou que uma mulher pode buscar uma medida protetiva pela Polícia Civil, pela Defensoria Pública ou por meio de advogado e que, em determinadas situações, não é necessário sequer o registro prévio de ocorrência policial. Ela também destacou que mulheres em situação de violência doméstica podem procurar a Defensoria Pública independentemente da renda para solicitar medidas protetivas e receber orientação jurídica.
Acolher sem julgar
A palestra avançou também sobre o papel de familiares, amigos e colegas de trabalho na identificação e no acolhimento de vítimas. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, lesões frequentes sem explicação, vestimentas utilizadas para esconder ferimentos, falta de autonomia financeira e relutância em falar sobre o parceiro podem servir de alerta.
Para Bibiana, frases como “por que você não foi embora antes?”, “você vai voltar para ele de novo?” ou “você escolheu esse homem” contribuem para aumentar o isolamento. A abordagem, segundo ela, deve seguir o caminho oposto: “Eu acredito em você”, “você não está sozinha”, “como posso ajudar?” e “existem serviços para te apoiar”. “Quem decide o momento de sair é a mulher. O nosso papel é acolher. Isso é muito mais eficaz”, explicou.
Em 2025, segundo os números apresentados no encontro, a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul realizou 20.564 atendimentos a mulheres vítimas de violência doméstica. No total, a instituição contabilizou cerca de 2,5 milhões de atendimentos à população gaúcha no período.
Uma transformação que depende da sociedade
Ao concluir, Bibiana reforçou que a redução da violência contra a mulher não será alcançada apenas pela atuação do Judiciário, da polícia, do Ministério Público ou da própria Defensoria. “Não vai ser uma instituição sozinha que vai fazer a diferença. Isso é uma questão social, é uma questão cultural, e só a sociedade pode mudar. Nós somos multiplicadores de informação”, afirmou.
A mensagem dialoga diretamente com a proposta da cartilha distribuída durante o encontro. Mais do que explicar direitos e canais de denúncia, o material busca fazer com que a informação circule para além das mulheres que já chegaram à rede de proteção. Como resumiu Juliano Ferrer na abertura: “A luta precisa ser de todos.”















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