Jane Manssur no Seguro Sem Mistério: educação, humanismo e o futuro de um mercado feito de pessoas

No episódio, Jane Manssur reflete sobre décadas de formação de profissionais, o papel do corretor como consultor e a esperança como motor de transformação

Em mais um episódio do programa Seguro Sem Mistério, Júlia Senna, CEO do JRS, recebeu Jane Manssur, educadora que dedicou grande parte da sua vida à formação de profissionais do mercado segurador. Por anos à frente da Escola de Negócios e Seguros, Jane ajudou a construir gerações de corretores, executivos e especialistas e segue sendo uma das vozes mais respeitadas e atentas às transformações do setor.

Para ela, ser educadora é, antes de tudo, uma questão de empatia. “É aquela pessoa que se coloca no lugar do outro e tenta entender qual é o melhor processo para aquela pessoa aprender e observar a sociedade de uma outra forma“, define.

A mudança do papel do corretor

Jane acompanhou de perto a transformação do perfil dos profissionais que chegam ao mercado. Quando entrou na Escola de Negócios e Seguros, na década de 1980, os alunos eram majoritariamente filhos de corretores, muito ligados à técnica e às práticas de venda. Hoje, o cenário é outro.

São pessoas de diversos segmentos, com curso superior, que buscam estratégia. O corretor deixou de ser vendedor para se tornar consultor. É completamente diferente“, observa. Para Jane, essa mudança exige uma formação cada vez mais humanista. “O mercado dialoga com a filosofia, com a sociologia, vai tentar entender a família do cliente. Se o profissional não tiver uma base mais humanista, não vai conseguir avançar.”

O seguro como tecnologia da solidariedade

Ao longo da conversa, Jane trouxe uma reflexão que vai além do produto: o seguro como expressão de cuidado coletivo. Citando o sociólogo François Ewald, ela concorda que o seguro é uma tecnologia da solidariedade. “Ele não é apenas um instrumento financeiro, é uma forma institucionalizada de cuidado coletivo“, afirma.

E o mutualismo, para ela, carrega algo quase filosófico. “Eu te protejo e nem te conheço. Estou protegendo, através do mutualismo, pessoas que nunca vi na minha vida e nunca vou ver. Em um mundo cada vez mais individualista, o seguro ainda é um pacto coletivo.”

SOS Chuvas RS e o livro Rua da Esperança

Em 2024, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul mobilizaram Jane de uma forma muito especial. Junto com Júlia Senna e outras lideranças do mercado, ela ajudou a construir o movimento SOS Chuvas RS, que reuniu entidades do setor para coordenar ações de apoio às famílias atingidas.

Entre as iniciativas, duas marcaram profundamente: a mobilização de psicólogas para ligar diretamente para as famílias em situação de vulnerabilidade e o livro infantil Rua da Esperança, escrito pela própria Jane e levado a 11 escolas públicas com material de apoio às professoras.

Não era um livro, era um material de trabalho. Levei algo com que conseguíssemos trabalhar aquela emoção do momento e dar uma perspectiva de reconstrução“, explica Jane, que destaca o impacto ainda maior para crianças que, depois de uma pandemia, ainda tiveram que lidar com a perda de casas, escolas e referências.

Leituras que moldam uma visão de mundo

Leitora apaixonada, Jane não hesita ao recomendar autores. Saramago aparece como referência central: “Ele te dá uma visão humanista das coisas, te leva a pensar a sociedade, mostra uma ética por trás de cada ação.” Mas é o livro A guerra não tem rosto de mulher, da escritora bielorrussa Svetlana Alexievich, que ela define como leitura essencial.

É uma coisa impressionante. Uma guerra contada de forma feminina é completamente diferente. Bota um lenço do lado. Vale cinco lágrimas, ou muito mais.”

Inteligência artificial, foco e disciplina

Sobre o futuro do mercado, Jane é direta: a inteligência artificial jamais substituirá o julgamento humano. “Um julgamento envolve valores e ética. Para ter ética e desenvolver valores, precisa de um humano ali atrás, não uma máquina.”

E o maior desafio da educação hoje? O foco. “É tanta informação banal que a gente se perde no dia e, quando acaba, praticamente não fez nada.” Para Jane, disciplina, palavra que o brasileiro tende a encarar negativamente, é na verdade uma aliada. “Ter disciplina significa: agora eu quero fazer isso, vou dedicar minha energia aqui e não vou me distrair com aquilo.

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Bruno Carvalho

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Helena Toniolo

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