Durante décadas, a contratação de seguros corporativos esteve associada principalmente à proteção patrimonial e à indenização de prejuízos após um sinistro. A combinação de eventos climáticos extremos, ataques cibernéticos, interrupções logísticas e novas exigências regulatórias vem mudando essa lógica. Em um ambiente de negócios complexo, o seguro ocupa uma posição de valor estratégico dentro das empresas, tornando-se uma ferramenta de proteção da operação, da geração de caixa e da continuidade dos negócios.
Essa mudança acompanha a própria transformação do perfil de exposições e ameaças enfrentadas pelas organizações. Se antes as preocupações estavam concentradas em incêndios, danos materiais e responsabilidade civil, hoje a lista inclui vulnerabilidades profundamente amplas e interconectadas.
“O perfil de riscos corporativos tornou-se significativamente mais complexo nos últimos anos. Além dos riscos tradicionais, as empresas passaram a conviver com exposições cada vez mais relevantes relacionadas a eventos climáticos extremos, ataques cibernéticos, interrupções na cadeia de suprimentos e maior pressão regulatória“, afirma Guilherme Pugliese, diretor de Licitações e Técnico de P&C da Wiz Corporate.
Segundo ele, esse novo cenário exige uma revisão constante dos programas de seguros. “Não basta apenas contratar uma apólice patrimonial ou de responsabilidade civil. As organizações precisam avaliar de forma integrada questões operacionais, financeiras e reputacionais para garantir que a transferência de riscos esteja alinhada à realidade do negócio.“
Continuidade entra no radar
A preocupação também se transformou. Enquanto antes o foco estava na substituição de ativos danificados, hoje a prioridade concentra-se na capacidade de continuidade da operação diante de eventos imprevistos.
“Existe uma atenção crescente com riscos cibernéticos, eventos climáticos severos, interrupções produtivas e impactos na cadeia de fornecimento”, explica Pugliese. “Ao mesmo tempo, observamos uma preocupação maior em entender se os limites contratados são suficientes para suportar um evento relevante.“
Isso significa que os prejuízos decorrentes da paralisação das atividades passaram a ser tão importantes quanto os danos físicos propriamente ditos, por vezes até superando essa marca. Perda de receita, quebra de contratos, atrasos na produção e impactos reputacionais entraram definitivamente na equação.
Impacto na reconfiguração de programas de proteção
O mapeamento de exposições financeiras também têm levado empresas a uma visão estratégica dos seguros. Embora ainda exista espaço para amadurecimento, cresce o entendimento de que a contratação não deve ser analisada apenas pelo valor do prêmio.
“Em muitos casos, o seguro continua sendo avaliado prioritariamente sob a ótica do custo, e não da proteção financeira efetiva“, observa Pugliese. “A visão estratégica se manifesta quando a empresa passa a enxergar o seguro como um instrumento de proteção do balanço e da geração de caixa, e não apenas como uma despesa obrigatória.“
Essa mudança ganhou força após uma série de eventos recentes que expuseram fragilidades em programas de proteção considerados adequados até então. O aumento da frequência e da severidade de eventos climáticos, a crescente digitalização das operações e a dependência de fornecedores críticos levaram muitas organizações a revisar coberturas, franquias e limites contratados.
“Muitos eventos demonstraram que o impacto financeiro de um sinistro pode ser significativamente superior ao dano material direto“, afirma.
Nova postura
Entre os fatores que mais têm influenciado as decisões corporativas estão os riscos emergentes. Ataques cibernéticos, por exemplo, podem interromper operações inteiras, enquanto enchentes, alagamentos e vendavais vêm provocando perdas bilionárias em diferentes regiões do país.
Para Pugliese, esses acontecimentos reforçam que prevenção e gestão de riscos precisam caminhar ao lado da transferência financeira das perdas.
“As empresas têm investido em controles, tecnologia e gestão de riscos, mas começam a compreender que determinados eventos podem gerar impactos financeiros de grande magnitude“, diz.
Ele destaca que ainda existem organizações que contratam coberturas reduzidas para riscos climáticos ou deixam de incluir garantias como Lucros cessantes para reduzir custos. “O desafio do mercado é evoluir para uma contratação mais aderente à exposição real de cada operação.“
Soluções sob medida ganham espaço
Nesse contexto, cresce a demanda por programas personalizados. Modelos padronizados, segundo especialistas, muitas vezes não conseguem refletir as particularidades de cada negócio, setor ou cadeia produtiva. “As empresas estão cada vez mais conscientes de que riscos diferentes exigem soluções diferentes“, afirma Pugliese. “Modelos padronizados tendem a não refletir adequadamente as particularidades de cada operação.“
A tendência é que a construção dos programas de seguros passe cada vez mais por análises individualizadas, combinando inteligência de dados, gestão e estruturas customizadas de transferência de risco.
Para o executivo, o futuro do mercado corporativo passa justamente por essa evolução. “A maturidade do setor depende da forma como as empresas enxergam a transferência de riscos. O objetivo é transformar o seguro em uma ferramenta estratégica de proteção, resiliência e continuidade operacional.“
Num contexto permeado por incertezas, o debate vai além da mera cobertura. A ênfase desloca‑se rumo à habilidade das organizações de manterem suas operações, expandirem e preservarem valor mesmo frente aos obstáculos complexos.
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