A saúde dos colaboradores ocupou espaço nas discussões sobre produtividade, sustentabilidade dos negócios e competitividade. Essa foi uma das principais reflexões do Fórum Executivo de Recursos Humanos promovido pela MDS Brasil, realizado nesta terça-feira (17), no Instituto Ling, em Porto Alegre.
Reunindo lideranças de RH, executivos e especialistas, o encontro abordou bem-estar mental, autocuidado e os impactos dessas questões nos resultados das empresas. Entre os participantes, o CEO da Icatu Seguros, César Saut, chamou atenção ao ampliar a discussão além do ambiente corporativo.
“É muito importante esse encontro, é muito importante o momento que estamos vivendo. O Rio Grande do Sul está numa situação complexa. O Brasil também está numa situação complexa“, afirmou.
Ao relembrar sua trajetória no mercado segurador, Saut fez uma análise sobre as transformações econômicas das últimas décadas e os desafios enfrentados pelo Estado.
“Há 30 anos, quando abrimos a Icatu no Sul, o Rio Grande do Sul representava cerca de 7% do PIB brasileiro. Hoje, participa com pouco mais de 5%. O Estado enfrentou quatro estiagens e duas enchentes nos últimos anos. O Rio Grande do Sul andou para trás. O Brasil também andou para trás.“
Segundo ele, o debate sobre gestão de pessoas e desenvolvimento econômico precisa caminhar junto. “O agro enfrenta dificuldades, a indústria sofre com a carga tributária e a competição global. Precisamos encontrar novas vocações e novos caminhos para crescer.“
Mitigação de riscos nas pressões corporativas
Ao longo dos debates, outro consenso entre os participantes foi a necessidade de substituir uma cultura focada no tratamento da doença por uma visão voltada à prevenção.
Fábio Camilo, Head de Psicologia da Vittude, afirma que empresas e indivíduos ainda costumam agir apenas quando os problemas já se tornaram graves.
“O brasileiro cuida muito mais da doença do que da saúde. A gente costuma procurar ajuda quando algo já não está bem há bastante tempo. Nas empresas acontece algo parecido. Muitas vezes se espera chegar a um ponto em que os custos são exorbitantes para só então agir.“
Na avaliação do especialista, a saúde precisa deixar de ser vista como despesa e passar a integrar a estratégia das organizações. “Muitas empresas, se analisassem o quanto gastam com o adoecimento das pessoas, provavelmente investiriam muito menos em prevenção para alcançar resultados melhores. Saúde precisa ser pauta de investimento em gente, não de custo.”
Camilo também alertou para o risco de uma cultura baseada exclusivamente em resultados.
“Ainda existe uma lógica de resultado a qualquer custo. Isso gera um ciclo em que a empresa adoece as pessoas, depois investe para tratar esse adoecimento, quando poderia atuar na origem do problema.“
Autocuidado entra na agenda das lideranças
A importância da responsabilidade individual no cuidado com a saúde também foi destacada durante o encontro. Carla Fanfa, coordenadora de Saúde Integral da Sodexo, explicou que a construção de práticas corporativas exige constância e visão de longo prazo.
“Educação em saúde é contínua. Não gera resultados imediatos. É um trabalho de conscientização, orientação e cuidado que acontece ao longo do tempo.“
Segundo ela, o tema já ocupa posição estratégica dentro da empresa. Recentemente, dedicaram a abertura do fórum da alta liderança ao tema do autocuidado. Durante uma hora e meia, discutiram a importância de os líderes cuidarem da própria saúde.
Na visão de Carla, a análise dos indicadores é essencial à eficácia das medidas adotadas. “Precisamos conhecer profundamente os dados de saúde, absenteísmo, afastamentos e recorrências. Só assim conseguimos desenvolver campanhas e iniciativas conectadas às causas reais.“
Terapia como ferramenta de gestão
A vice-presidente de Recursos Humanos da MDS Brasil, Luciana Lopardo, compartilhou a experiência da companhia na ampliação das iniciativas voltadas à saúde mental. Após uma pesquisa interna realizada em 2023, a empresa identificou essa demanda e passou a oferecer terapia aos colaboradores.
“Hoje, pelo menos 50% do nosso time faz terapia semanalmente. É um número muito expressivo e mostra que conseguimos atuar em uma necessidade real das pessoas.“
De acordo com ela, a ação gerou impactos favoráveis não só no bem-estar dos funcionários, como também no ambiente organizacional e nos indicadores internos.
“A gente percebeu uma evolução muito significativa nas pesquisas de clima e na percepção das pessoas sobre a empresa.“
O desafio, segundo Luciana, se torna ainda maior em uma organização em constante expansão.
“Há cinco anos éramos cerca de 600 colaboradores. Hoje somos 1.800 pessoas. Crescemos muito por meio da integração de novas empresas e isso exige um trabalho contínuo para fortalecer cultura, pertencimento e cuidado.“
Gente boa constrói negócios
O encerramento da plenária trouxe nova defesa sobre a centralidade do capital humano no progresso das organizações. César Saut utilizou o modelo de negócios da Rio Grande Seguros, união estratégica entre Icatu e Banrisul, para exemplificar como a atração e a retenção de talentos determinam o êxito comercial de uma companhia.
“Uma tese que eu defendo é simples: gente boa cria mercado. Gente boa cria produto. Eu preciso primeiro de pessoas. Ao redor de gente boa eu construo um case de sucesso.“
O momento exige lideranças capazes de olhar simultaneamente para resultados, saúde e desenvolvimento econômico. “Independentemente de tudo o que aconteceu, das enchentes e das dificuldades, o que continua fazendo a diferença é a capacidade de reunir pessoas qualificadas, comprometidas e preparadas para construir soluções.“







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