A inovação no mercado de seguros também depende de decisões que garantam a sustentabilidade das operações. A relação entre qualidade das vendas, gestão de riscos, provisões técnicas e capital esteve no centro do painel “Inovar com Solidez: Riscos, Capital e Sustentabilidade”, realizado nesta quinta-feira, 29 de outubro, durante a 6ª Maratona da Inovação em Seguros do JRS, no Vista Pontal, em Porto Alegre.
A apresentação reuniu Éder Oliveira e Danielle Wilk, atuários e sócios da Atuária Brasil. Os especialistas explicaram como a gestão atuarial contribui para a saúde financeira das companhias e para o cumprimento dos compromissos assumidos com os segurados.
Ao tratar do conceito de inovação, Éder chamou a atenção para a necessidade de aperfeiçoar processos e práticas, sem associar mudanças exclusivamente à adoção de novas tecnologias.
“Inovar, às vezes, é melhorar o que temos na nossa gestão de negócios. A gente acha que inovar é fazer malabarismo, contratar um software novo, fazer um monte de coisas. Muitas vezes, não é isso. É fazer melhor o que a gente já faz”, afirmou.
Para Éder, a segurança das operações também representa uma forma de inovação. Nesse sentido, defendeu a presença dos atuários nas decisões estratégicas das empresas, para que o conhecimento técnico sobre riscos e resultados seja considerado nas escolhas de negócio.
“Inovar é ter um atuário junto na tomada de decisão. O atuário não deve estar lá só para calcular provisão. Ele entende da operação”, explicou.
O palestrante também abordou a função das provisões técnicas, valores que as seguradoras devem provisionar para fazer frente às obrigações decorrentes dos contratos. Ao utilizar o seguro de automóvel como exemplo, explicou que o prêmio recebido não pode ser tratado como um recurso disponível para consumo imediato, pois precisa sustentar os compromissos previstos na apólice.
“Provisão técnica é solução, não problema”, resumiu.
Éder relacionou esse cuidado à qualidade das vendas. Na avaliação dele, ampliar a carteira sem considerar a adequação dos preços e os riscos assumidos pode comprometer o equilíbrio financeiro da operação. A expansão exige, portanto, planejamento e capital compatível com as obrigações assumidas nos novos negócios.
“É bom vender? É. Mas a gente tem que entender que precisa vender com qualidade. Não adianta quantidade”, alertou.
A solvência financeira também esteve entre os temas apresentados. O conceito está relacionado à capacidade da companhia de honrar seus compromissos. Para isso, as seguradoras precisam manter ativos garantidores compatíveis com as provisões técnicas constituídas.
Danielle Wilk aprofundou a explicação ao apresentar o segundo pilar da solvência: a relação entre o patrimônio líquido ajustado (PLA) e o capital mínimo requerido (CMR). O primeiro considera o patrimônio líquido contábil e ajustes técnicos; o segundo representa o capital mínimo exigido diante dos riscos da atividade.
A atuária detalhou as quatro categorias consideradas no cálculo do capital: riscos de subscrição, crédito, mercado e operacional. Entre os fatores que influenciam esses indicadores estão a precificação dos produtos, a capacidade das contrapartes de honrar compromissos, as oscilações financeiras e as falhas de processos.
Os dois pilares precisam ser atendidos para que as empresas tenham condições de cumprir suas obrigações. Por isso, as escolhas comerciais também produzem efeitos sobre a estrutura financeira das seguradoras.
“Quando a gente precifica bem uma venda, isso contribui para provisões adequadas”, explicou Danielle. A especialista observou que reservas corretamente dimensionadas ajudam a cobrir os sinistros e evitam a imobilização desnecessária de recursos que poderiam gerar rentabilidade para a companhia.
A seleção de riscos e a gestão dos investimentos também receberam atenção. Uma carteira bem estruturada pode contribuir para reduzir a sinistralidade e a necessidade de capital, enquanto a concentração excessiva de exposições pode ampliar os impactos de eventos catastróficos.
Para preservar a solvência, Danielle apontou duas frentes de atuação: fortalecer o patrimônio líquido ajustado e otimizar o capital exigido. Entre as medidas, citou a geração de resultados positivos, a capitalização dos lucros, a diversificação da carteira, a gestão de ativos e passivos e uma política de subscrição disciplinada.
O planejamento ganha ainda mais relevância em períodos de expansão. Segundo a atuária, a necessidade de capital pode surgir antes que os resultados correspondentes sejam integralmente reconhecidos, especialmente em contratos de prazo mais longo.
“A conta do capital chega mais rápido que a conta do resultado”, observou.
O acompanhamento contínuo dos indicadores permite identificar desvios e antecipar medidas corretivas. Para Danielle, a participação dos atuários no planejamento estratégico ajuda as companhias a avaliar os efeitos das decisões comerciais antes que eventuais desequilíbrios se agravem.
Na conclusão do painel, Éder retomou a discussão sobre tecnologia e alertou para os limites da inteligência artificial. Na avaliação do especialista, a ferramenta pode auxiliar os profissionais, mas não substitui o conhecimento técnico nem a responsabilidade pelas decisões.
“Pés no chão, consciência da grandeza e da responsabilidade que a gente tem enquanto seguradores, enquanto membros dos times de seguradoras, porque a gente leva, sim, um compromisso junto à nossa sociedade”, afirmou.
O atuário também ponderou que a inteligência artificial ainda precisa avançar em aplicações no campo atuarial. “Cuidem com a IA. A IA não é a solução para tudo”, ressaltou.
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