O avanço da inteligência artificial, a ampliação do uso de dados e as mudanças no comportamento dos consumidores estão criando novas possibilidades para o mercado segurador. Ao mesmo tempo, as companhias precisam equilibrar a modernização de suas operações com a segurança e a experiência acumulada ao longo dos anos. Esse foi o ponto de partida da palestra “O seguro do futuro e o futuro dos seguros: como equilibrar a operação tradicional e a disrupção”, apresentada por Bernardo Castello, presidente da Bradesco Vida e Previdência, nesta quinta-feira, 29 de outubro, durante a 6ª Maratona da Inovação em Seguros do JRS, em Porto Alegre.
Na apresentação, o executivo compartilhou reflexões sobre transformações tecnológicas, inteligência de mercado, longevidade e oportunidades comerciais. A ideia incentiva os profissionais a irem além dos modelos tradicionais de distribuição, levando em conta tendências que já impactam diferentes setores da economia.
Bernardo utilizou exemplos de empresas lideradas por Elon Musk, destacando a mudança de foco dos veículos autônomos em direção a tecnologias que envolvem robôs humanoides, a exemplo do projeto Optimus. “Ele está falando muito de robôs humanoides porque isso tem uma tendência muito grande de substituir muita coisa, muito trabalho repetitivo em várias indústrias, inclusive na nossa”, observou.
A reflexão trouxe à tona as possibilidades de automação no setor, mas também a necessidade de compreender os limites e os objetivos de cada investimento.
Inteligência artificial exige estratégia e clareza
Embora reconheça o potencial da IA na transformação das empresas, Castello alertou sobre os riscos de implementar ferramentas sem planejamento. Segundo ele, a adoção de novas tecnologias deve estar associada à solução de problemas concretos, evitando investimentos que não apresentem benefícios mensuráveis.
“A inteligência artificial não é só ganhar eficiência, não é só melhorar processo, não é só digitalizar”, destacou.
Segundo o executivo, a ausência de governança pode comprometer recursos que poderiam ser direcionados a iniciativas mais consistentes. A questão central está na capacidade de identificar onde a inovação realmente contribui para os resultados do negócio.
“A inteligência artificial, sem uma governança, sem um planejamento, sem uma clareza de onde quer chegar e do problema que quer resolver, pode gastar um orçamento de alguns anos em semanas ou meses”, alertou.
Nesse contexto, diferenciou os investimentos motivados exclusivamente pela tecnologia daqueles que fazem parte de uma estratégia empresarial. “Ou a gente tem clareza de onde quer chegar através da inteligência artificial ou a gente vai queimar dinheiro. Será que é isso que a gente quer? Acho que não”, questionou.
Volume de dados e capacidade de interpretação
Outro ponto abordado foi a importância das informações na atividade seguradora. Historicamente, dados são utilizados em processos de precificação, subscrição, constituição de reservas e avaliação de riscos. Entretanto, o crescimento do volume disponível exige uma capacidade cada vez maior de interpretação.
Castello lembrou que, durante muito tempo, a concentração de informações foi considerada uma vantagem competitiva. Atualmente, porém, a disponibilidade desses registros não garante, isoladamente, melhores resultados.
“Independente do ramo do seguro, a informação está presente desde que o seguro é seguro. A gente sabe da importância da informação, usada na precificação, na subscrição de risco, na constituição de reservas e na mitigação de risco”, explicou.
O executivo também recuperou a expressão data is the new oil, que compara os dados ao petróleo, para questionar a ideia de que o simples acúmulo de informações representa um diferencial.
“Quem tiver dados, quem conseguir reunir dados primeiro, vai ter uma vantagem competitiva. Algum tempo depois, o que a gente percebe? Não é verdade que só ter dados resolve. Não é verdade que só ter dados gera uma vantagem competitiva”, ressaltou.
A discussão reforçou a importância de transformar informações disponíveis em conhecimento capaz de orientar estratégias, aprimorar operações e apoiar decisões comerciais.
Longevidade e sucessão patrimonial abrem oportunidades
Além da tecnologia, Castello enfatizou as transformações demográficas e suas consequências no setor de seguros. Diante da maior longevidade da população, novas necessidades emergem ligadas à proteção familiar, ao planejamento sucessório e à preservação do patrimônio.
Durante a apresentação, o presidente da Bradesco Vida e Previdência mencionou projeções internacionais que apontam para uma transferência de aproximadamente US$ 84 trilhões em riqueza entre gerações até 2042. “Desde 2022, talvez até desde 2019, muito se fala que vamos vislumbrar a maior transferência de riqueza da história. São alguns trilhões, 84 trilhões de dólares até 2042. O que isso significa? O que eu tenho a ver com isso no mercado de seguros? É uma baita oportunidade e um baita desafio para todos nós”, afirmou.
Na avaliação do executivo, produtos de vida e previdência podem contribuir para a organização desse processo, oferecendo alternativas de proteção e planejamento financeiro às famílias.
O movimento também envolve empresas familiares, grandes patrimônios e propriedades ligadas ao agronegócio, que deverão passar por processos de sucessão ao longo dos próximos anos. Para Castello, a chegada de novas gerações à administração desses recursos representa tanto uma oportunidade comercial quanto um desafio de adaptação às expectativas e necessidades de um público com hábitos diferentes.
Novos ecossistemas transformam a distribuição de seguros
As mudanças no acesso a produtos e serviços também estiveram entre os assuntos da palestra. Castello abordou o avanço dos ecossistemas digitais e as possibilidades de integrar soluções securitárias a diferentes momentos da jornada do consumidor.
Nesse modelo, a contratação de uma cobertura pode surgir associada a outras necessidades, sem depender exclusivamente dos canais convencionais de comercialização.
“Uma pessoa que está se deslocando pode receber uma oferta de seguro viagem, de uma cobertura de desemprego e por aí vai. Ora, como é que a gente deixou isso passar? Na verdade, isso é fruto da inovação, é fruto da evolução”, observou.
O executivo também utilizou a transformação do setor automotivo como exemplo das mudanças na relação entre consumidores e produtos. Antes associado principalmente à locomoção, o veículo passou a incorporar conectividade, tecnologias digitais e, mais recentemente, perspectivas relacionadas à direção autônoma.
Esse cenário amplia as possibilidades de interação entre diferentes serviços e exige que as seguradoras acompanhem novas formas de consumo.
Corretor assume papel cada vez mais consultivo
Diante de tantos movimentos, Castello provocou uma reflexão sobre o futuro dos profissionais de distribuição. Se a tecnologia facilita o acesso a produtos e permite ofertas mais conectadas ao cotidiano, o corretor precisa encontrar novas maneiras de demonstrar seu valor.
“Como é que o corretor se mantém relevante nesse ambiente? É uma reflexão que a gente tem que fazer”, questionou.
Na visão do presidente da Bradesco Vida e Previdência, a orientação especializada ganha importância em um cenário de maior complexidade, especialmente nas decisões que envolvem proteção patrimonial, previdência e necessidades familiares.
“A função do corretor, cada vez mais, é e será aconselhamento do cliente”, afirmou.
Essa reflexão evidencia que o avanço do setor securitário ultrapassa a mera adesão a recursos tecnológicos. A habilidade de extrair conhecimento dos dados, acompanhar as transformações demográficas e oferecer um aconselhamento qualificado ao cliente desponta na consolidação de parcerias.
Entre a inteligência artificial, os novos modelos de distribuição e a transferência de patrimônio entre gerações, a apresentação de Castello evidenciou um mercado em transformação, no qual o desafio será conciliar a experiência das operações tradicionais com a capacidade de acompanhar novas demandas.
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