Conversão de dificuldades em oportunidades, acompanhamento de saltos tecnológicos e criação de negócios sem dependência direta de seus criadores marcaram os aprendizados trazidos por Gustavo Dal Pizzol, fundador e CVO da Fiber. O encontro ocorreu na 6ª Maratona da Inovação em Seguros do JRS, sediada no Vista Pontal, em Porto Alegre. Na exposição “Case de sucesso: Fiber”, o empresário detalhou etapas de sua jornada e conectou os percalços do empreendedorismo às transformações do setor segurador.
Ao relembrar o início da carreira, Dal Pizzol contou que as dificuldades financeiras não impediram seus planos de crescimento. Pelo contrário, a clareza sobre seus objetivos foi determinante na construção dos primeiros negócios.
“A situação da minha família e a situação em que eu me encontrava naquela época nunca foi um peso, porque eu sabia exatamente o que queria buscar”, afirmou.
Um dos momentos importantes dessa trajetória ocorreu em 2010, quando reuniu recursos e conseguiu estruturar a operação conforme havia planejado. “Lá em 2010, eu consegui crescer, juntei R$ 200 mil e montei a primeira estrutura realmente do jeito que eu gostaria”, relembrou.
A partir desse período, o empresário desenvolveu projetos ligados ao design e à indústria calçadista, chegando a atuar no mercado internacional. Contudo, a atenção voltada à tecnologia viabilizou um novo momento, impulsionado pela aplicação de métodos de tecelagem técnica 3D.
Segundo Dal Pizzol, a oportunidade surgiu após uma conversa com um cliente argentino interessado em investir no Brasil. Ao ser questionado sobre as perspectivas do mercado, identificou uma possibilidade ainda pouco explorada no país.
“Ele disse: ‘Gustavo, a gente quer investir no Brasil porque a Argentina está muito ruim. E o que tu está enxergando de futuro?’. Eu respondi: ‘Existe uma tecnologia que o Brasil ainda não explorou, que é a de tecelagem técnica 3D’”, contou.
A capacidade de adaptação ganhou importância durante a pandemia de Covid-19. Até então, a empresa concentrava parte de suas atividades no desenvolvimento de produtos destinados a outras marcas, modelo conhecido como private label. Com a crise sanitária, a tecnologia já utilizada na operação permitiu o desenvolvimento de máscaras de proteção, abrindo um novo mercado.
O produto alcançou visibilidade nacional e passou a ser utilizado por clubes de futebol, atletas e integrantes da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos. A marca também participou de iniciativas e campanhas envolvendo personalidades, entre elas Pelé.
De acordo com Dal Pizzol, a crise acabou acelerando uma transformação que poderia ter levado muitos anos. “Nós éramos uma empresa que fazia private label, projetos para terceiros, e a pandemia, a crise, nos impulsionou, nos levou para um novo mercado de marca. Eu brinco que fizemos 20 anos de marca em dois”, destacou.
Com a maior exposição dos produtos, o empresário passou a buscar alternativas que permitissem à Fiber desenvolver uma identidade própria, associando tecnologia, funcionalidade e benefícios aos consumidores.
“Já que eu tenho uma marca nova, o que posso fazer de diferente do que os outros fizeram até então? A gente quis fazer realmente uma marca que fizesse diferença na vida das pessoas, produtos que trouxessem atributos, benefícios, bem-estar, trazendo tecnologia e funcionalidade de verdade”, explicou.
A experiência demonstrou que momentos de instabilidade também podem abrir espaço para a revisão de estratégias, especialmente quando as empresas conseguem aproveitar conhecimentos e estruturas já existentes em novas aplicações.
Ao abordar as transformações atuais,chamou atenção a velocidade com que a inteligência artificial vem alterando atividades e modelos de negócio. Na avaliação do empresário, a evolução tecnológica oferece novas possibilidades de desenvolvimento, mas também provoca insegurança entre profissionais que construíram suas carreiras com base em conhecimentos especializados.
“A tecnologia está mudando os modelos de negócio com muita velocidade e ela é um caos também, porque está gerando extinção em diversos setores”, observou.
Como exemplo, citou o trabalho de advogados e outros especialistas cujas atividades podem ser parcialmente realizadas por ferramentas digitais. Essa mudança representa um desafio que ultrapassa a questão econômica e alcança a identidade das pessoas. “Imaginem um advogado, por exemplo. Foram anos de estudo, de especialização e conhecimento, onde tudo aquilo que ele aprendeu era o seu grande diferencial. De repente, ele não é mais substituído por um profissional mais competente. Ele simplesmente é substituído pelo próprio cliente que usa a IA”, exemplificou.
O empresário também questionou os efeitos emocionais dessas transformações, especialmente quando a profissão ocupa um espaço central na maneira pela qual o indivíduo se reconhece.
“Quando ela perde a profissão, isso desmorona toda a estrutura do ser humano. As pessoas estão percebendo que a mudança está levando à extinção de muitas atividades. Então, na velocidade em que tudo está sendo substituído, as pessoas estão perdendo, de fato, essa identidade”, refletiu.
Outro trecho da exposição priorizou a formação de empresas escaláveis, imunes à dependência excessiva do fundador na tomada diária de decisões. Dal Pizzol propôs uma reflexão sobre o significado de prosperidade, relacionando o sucesso empresarial ao equilíbrio entre vida pessoal, saúde, ambiente profissional e estabilidade econômica.
“O que é prosperar? É ter dinheiro? Isso é prosperidade? É ter uma família harmonizada? É ter saúde? É ter uma empresa onde você gosta de trabalhar todo dia? O que é prosperidade?”, questionou.
Na visão do fundador da Fiber, alcançar esse equilíbrio exige organização interna, desenvolvimento de lideranças e uma estrutura que permita a continuidade das operações independentemente da presença constante do empreendedor.
“Para buscar prosperidade, é preciso organizar a base dentro do nosso negócio, da nossa operação. Como eu construo algo que não dependa só de mim?”, provocou.
Gustavo contou que passou a dedicar atenção à formação de profissionais preparados para assumir responsabilidades e contribuir com decisões estratégicas. “Quando eu treino os CEOs, busco preparar pessoas para que a empresa não tenha dependência de mim. Porque, senão, é uma panela de pressão, todo o teu negócio está estruturado sobre a tua base, o teu pilar. Quando tu te vê sozinho, eu passei por isso”, compartilhou.
Na parte final da palestra, Dal Pizzol aproximou os aprendizados de sua trajetória da realidade do mercado segurador. Diante do avanço das plataformas digitais e da possibilidade de automatização de diferentes etapas comerciais, o empresário convidou os participantes a refletirem sobre a relevância de seu trabalho.
A provocação envolveu a necessidade de os profissionais ampliarem sua atuação além da comercialização de produtos, valorizando o conhecimento sobre os clientes e a capacidade de orientar escolhas.
“Se a tecnologia pode ajudar a vender seguros, por que o cliente ainda precisa de você? O que é o vendedor daqui para frente? Você é um vendedor de produto ou é um consultor de decisões?”, questionou.
A reflexão encerrou uma apresentação marcada por experiências de superação e mudanças de posicionamento empresarial. Ao compartilhar o caminho percorrido pela Fiber, Dal Pizzol mostrou que a adaptação às novas tecnologias também exige uma revisão da maneira pela qual as empresas desenvolvem seus profissionais e entregam valor aos consumidores.
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