Maratona JRS discute caminhos para identificar oportunidades ainda pouco exploradas em seguros

Especialistas destacam potencial do seguro garantia, da prevenção de riscos e da qualificação profissional para ampliar negócios no setor

As oportunidades de crescimento no mercado de seguros nem sempre estão em produtos inéditos. Elas também podem surgir da identificação de necessidades pouco atendidas, da aproximação com os clientes e do uso estratégico da tecnologia. Essa perspectiva orientou o painel “Onde estão as oportunidades que ainda não estamos enxergando?”, realizado nesta quinta-feira, 29 de outubro, durante a 6ª Maratona da Inovação em Seguros do JRS, no Vista Pontal, em Porto Alegre.

Mediada por Bruno Carvalho, diretor do JRS, a conversa reuniu Mauro Pizzolatto, advogado e sócio da Pizzolatto Advogados; Fabiane Silveira, coordenadora pedagógica da Escola de Negócios e Seguros (ENS); Gabriel Bustamante, Head of Engineering & AI Strategy da TRINCA; e Luiz Osório Silveira, CEO da Unnex Group. Os convidados discutiram como reconhecer novas demandas, preparar profissionais para as transformações do setor e converter conhecimento em oportunidades de negócio.

Ao abrir o debate, Bruno questionou Gabriel Bustamante sobre como acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas, especialmente com o avanço da inteligência artificial. O executivo apontou a capacitação e a formação como caminhos para que empresas e profissionais compreendam as ferramentas e aprendam a utilizá-las de maneira estratégica.

Na avaliação de Bustamante, o acesso à tecnologia está cada vez mais disseminado, inclusive entre as áreas de negócio. O desafio, portanto, não está apenas em experimentar novas ferramentas, mas em definir o que se pretende alcançar com elas.

Essa discussão levou à reflexão sobre o papel do corretor em um cenário de automação crescente. Fabiane Silveira defendeu que o conhecimento tecnológico precisa estar acompanhado da capacidade de compreender e atender pessoas. Com duas décadas de atuação no mercado de seguros, ela ressaltou que o profissional deve saber como as ferramentas podem facilitar sua rotina, sem perder de vista a empatia e a qualidade do atendimento.

“Eu preciso saber o que essa ferramenta pode me facilitar no dia a dia, mas eu jamais esquecer de como usar esse conhecimento que eu obtenho por meio das ferramentas para atender melhor o meu cliente, ser mais empática”, afirmou.

A coordenadora também chamou a atenção para a função social do seguro e para a necessidade de ampliar o acesso à proteção. Como exemplo, mencionou os trabalhadores de plataformas digitais, público que, segundo ela, ainda precisa de mais informação sobre os produtos disponíveis e sua importância.

Para Luiz Osório Silveira, a busca por oportunidades começa na relação cotidiana com o cliente. Com mais de 40 anos de experiência no mercado, ele defendeu que o corretor não deve limitar o contato aos períodos de renovação, mas aproveitar as interações para identificar mudanças na vida e nas necessidades de quem atende.

“O corretor é o consultor do cliente. E será que ele está atuando efetivamente como um consultor?”, questionou.

Osório também observou que a tecnologia faz parte da rotina do setor, mas não substitui a capacidade de perceber oportunidades a partir do relacionamento. Na atuação da Unnex Group, que representa empresas de seguros, assistências e tecnologia, a proposta é reunir soluções que ajudem os corretores a ampliar a oferta de serviços e construir fontes de receita recorrente. Entre as possibilidades mencionadas estão seguros inclusivos, antecipação de recebíveis e telemedicina.

O debate ganhou outra perspectiva quando Bruno direcionou a conversa para as contratações públicas. Mauro Pizzolatto, que atua há três décadas nesse mercado, apresentou o Seguro Garantia como uma frente que ainda oferece espaço para expansão. Segundo o advogado, as compras governamentais movimentaram cerca de R$ 1 trilhão em 2025, conforme dados que atribuiu ao Ministério do Planejamento e Integração.

Pizzolatto explicou que as licitações podem exigir garantias tanto para a participação no processo quanto para a execução dos contratos. O Seguro Garantia, especialmente em obras e serviços de engenharia, representa uma oportunidade para seguradoras e corretores que conheçam as exigências desse segmento.

O advogado ponderou, porém, que atuar nesse mercado requer preparação específica. Não basta acompanhar a publicação de editais: é necessário identificar quais oportunidades exigem garantias, avaliar as condições dos contratos e manter uma estrutura capaz de atender às demandas.

“Só a tecnologia hoje não vai ajudar. Tem que ter gente preparada, estruturada, com conhecimento”, afirmou.

A partir desse exemplo, Bruno retomou a discussão sobre o uso da inteligência artificial e questionou como evitar que a adoção de novas ferramentas se limite à automatização de tarefas, sem gerar mudanças relevantes nos negócios.

Bustamante explicou que a tecnologia pode processar grandes volumes de dados e executar atividades operacionais, mas a definição de objetivos depende do pensamento crítico humano. Para ele, dispor de informações não garante boas decisões quando falta clareza sobre o problema a resolver.

“A inteligência artificial, ela resolve o como as coisas acontecem. Mas o que a gente precisa resolver, isso pertence ao ser humano, o pensamento crítico”, disse.

O executivo também defendeu que o setor utilize os dados para rever modelos de negócio, em vez de concentrar a inovação apenas na velocidade dos processos ou na comparação de preços. No mercado de seguros, citou a possibilidade de analisar o comportamento dos usuários para desenvolver soluções preventivas, com o objetivo de reduzir riscos e fortalecer a relação entre parceiros.

Fabiane voltou ao tema da formação profissional ao destacar que a atualização técnica precisa caminhar junto com o desenvolvimento de competências humanas. Saber ouvir, demonstrar empatia e compreender as necessidades de uma família são habilidades importantes para identificar demandas relacionadas à proteção financeira e ao planejamento.

Na ENS, segundo ela, os conteúdos precisam ter aplicação prática e acompanhar as transformações do setor. A instituição também utiliza ferramentas de inteligência artificial na produção de conteúdos informativos, com participação de professores especialistas na seleção dos temas e na revisão dos materiais antes da divulgação.

“A IA nos deu tempo. Nós ganhamos com a automação. Mas o olhar final sempre vai ser humano”, afirmou.

A coordenadora acrescentou que a educação continuará a ter papel central na preparação dos profissionais, mesmo com a evolução das ferramentas digitais. Para ela, a combinação entre tecnologia e conhecimento especializado permite organizar informações e transformá-las em aprendizado aplicável à rotina do mercado.

Bruno Carvalho também destacou o papel da educação na organização do conhecimento e na preparação dos profissionais. Ao recordar sua passagem pela Escola Nacional de Seguros, mencionou a contribuição de Jane Mansur para sua formação.

“Uma das responsáveis para a minha formação é uma das pessoas mais inteligentes e amáveis que eu já tive”, afirmou, referindo-se à profissional presente no evento. O diretor do JRS ressaltou ainda a importância do acesso à informação organizada para o desenvolvimento de quem atua no setor.

Nas considerações finais, Pizzolatto reforçou que a entrada no mercado de contratações públicas exige estudo, experiência e visão estratégica. Além de conhecer a legislação e a documentação necessária, as empresas precisam compreender o ambiente competitivo e desenvolver uma cultura voltada às licitações. O advogado reiterou que o seguro garantia representa uma oportunidade para quem estiver preparado para identificar demandas e atender às exigências desse segmento.

Bustamante, por sua vez, convidou as empresas a buscar parcerias tecnológicas mesmo quando ainda possuem apenas uma ideia inicial. Segundo ele, a inteligência artificial pode ajudar a explorar dados e identificar formas de modificar modelos de negócio, com maior atenção à prevenção do que à resposta após um sinistro.

Fabiane destacou a atuação da ENS na formação de profissionais e na aproximação com mercados internacionais. A instituição promove cursos e imersões para que alunos conheçam experiências de outros países e avaliem possibilidades de aplicação no mercado brasileiro.

Osório encerrou sua participação com ênfase na compreensão das necessidades dos corretores e na oferta de soluções que respondam às demandas do dia a dia. Com experiência tanto na operação de negócios quanto no relacionamento com seguradoras e corretoras, ele ressaltou a importância de reunir produtos e serviços capazes de ampliar as alternativas disponíveis aos clientes.

As contribuições dos painelistas apontaram para diferentes caminhos de expansão, desde nichos especializados, como o seguro garantia, até o desenvolvimento de soluções preventivas e a qualificação profissional. Em comum, as perspectivas apresentadas colocaram a capacidade de identificar necessidades reais no centro da busca por novas oportunidades.

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Guilherme Lopes

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Priscilla Freitas

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