Crescer em um mercado competitivo nem sempre significa criar algo inteiramente novo. Em alguns casos, a mudança começa com a decisão de explorar um canal diferente, desenvolver uma ferramenta própria ou resolver um problema que limita a rotina da empresa. Essas experiências estiveram no centro do painel “Cases de Sucesso”, realizado nesta quinta-feira (29), durante a 6ª Maratona da Inovação em Seguros do JRS, no Vista Pontal, em Porto Alegre.
Com mediação de Júlia Senna, CEO e editora-chefe do JRS, o encontro reuniu Anderson Romani, CEO da Wiz Corporate; Lucas Patzlaff, sócio da Patzlaff Corretora de Seguros; Peterson Goi, fundador e CEO da Ducon; e Mauricio Jardim, sócio da Agensel. Em uma conversa marcada por experiências pessoais e decisões empresariais, os convidados compartilharam caminhos que encontraram para desenvolver suas operações, fortalecer equipes e acompanhar as transformações do setor.
Anderson Romani apresentou a trajetória da Wiz Corporate, que se consolidou como uma das grandes operações de distribuição de seguros corporativos do país. Segundo ele, a empresa multiplicou seu tamanho por dez nos últimos cinco anos. Parte importante desse crescimento veio da necessidade de encontrar alternativas após a perda do contrato de distribuição com a Caixa, em 2021.
A mudança levou a companhia a investir em canais corporativos e a desenvolver uma operação com o Banco do Brasil, em parceria com a Mapfre. Romani contou que a iniciativa exigiu a formação de uma equipe, ajustes no modelo de atuação e disposição para aprender com os erros.
“Começamos, mudamos o contrato, tivemos que acertar vários problemas. Mas o que mudou a companhia, necessariamente, foram as pessoas certas que aprenderam a fazer a distribuição dentro de um banco que tem todos os clientes do mercado”, relatou.
A experiência também influenciou a estrutura interna da Wiz Corporate. De acordo com o executivo, cada unidade de negócio possui liderança e autonomia para buscar soluções adequadas às próprias necessidades. A estratégia procura combinar a capacidade de uma grande operação com a especialização e a proximidade características de corretoras menores.
Na Patzlaff Corretora de Seguros, a evolução também passou por mudanças na forma de trabalhar. Lucas Patzlaff contou que a empresa foi fundada por seu pai, em sociedade com outros três profissionais, no apartamento da família. A pandemia acelerou o processo de expansão e exigiu o envolvimento de toda a equipe em uma nova dinâmica de trabalho.
Para se diferenciar, o corretor destacou a participação em eventos, a busca por conhecimento e a atenção aos problemas do cotidiano. Ele também chamou a atenção para a mudança no comportamento dos consumidores, que recorrem cada vez mais a ferramentas de inteligência artificial para buscar informações e recomendações.
Na avaliação de Patzlaff, a inovação não depende necessariamente de uma transformação radical. A identificação de um problema e a disposição para resolvê-lo podem produzir avanços relevantes, desde que as decisões saiam do planejamento e cheguem à prática.
“Às vezes, são simples mudanças que você começa a aplicar dentro da sua empresa e que já vão fazer total diferença”, destacou Patzlaff.
O executivo também ressaltou a importância de discutir internamente como a tecnologia pode contribuir para cada atividade, sem presumir que toda solução precisa ser automatizada. Para ele, a equipe deve avaliar onde as ferramentas realmente ajudam e quais situações ainda exigem atenção direta das pessoas.
A trajetória de Peterson Goi, à frente da Ducon, teve uma motivação pessoal. Após quase duas décadas de atuação no mercado segurador, principalmente em seguradoras, ele decidiu empreender para conciliar a vida profissional com uma presença maior na vida dos quatro filhos.
Goi explicou que gostava do trabalho que realizava, mas percebeu que precisava reorganizar sua rotina. Como não pretendia deixar de atuar no setor, encontrou no empreendedorismo uma alternativa para construir um novo projeto e continuar trabalhando com seguros.
A experiência trouxe desafios relacionados à estruturação da empresa e aos investimentos necessários para sustentar o crescimento. O executivo destacou a criação de uma área própria de tecnologia e o desenvolvimento de processos mais ajustados à operação. A decisão exigiu recursos e tempo até apresentar resultados, mas permitiu aproximar os desenvolvedores da realidade do mercado segurador.
“Processos e tecnologia é o que tem feito a gente avançar e avançar com rapidez”, afirmou Goi. Segundo ele, a combinação dos dois fatores permitiu antecipar etapas do planejamento e colocar em prática iniciativas previstas para anos posteriores.
Um momento de descontração marcou a apresentação de Mauricio Jardim. Júlia Senna relembrou que o empresário foi a primeira e única pessoa do mercado a solicitar o cancelamento do recebimento da newsletter do JRS. A situação, que arrancou risadas da plateia, teve origem em um mal-entendido durante um evento, quando Jardim e seu pai acreditavam que seriam entrevistados por Jota Carvalho, fundador do JRS e pai de Júlia. A entrevista não aconteceu, o que provocou o descontentamento do empresário. Tempos depois, em um almoço do sindicato, os dois esclareceram a situação e construíram uma amizade.
Ao recordar o episódio, Júlia destacou a importância dos vínculos profissionais. “É sobre isso que falamos durante todo o evento: a importância das relações e das conexões duradouras”, afirmou, ao relacionar a história à trajetória da Agensel.
A experiência da Agensel trouxe ao debate outro aspecto da transformação empresarial: a continuidade de uma operação consolidada sem perder a capacidade de inovar. Mauricio Jardim, que integra a segunda geração da assessoria, contou que está na empresa desde 2000. Fundada por seu pai, Djalma Jardim, a Agensel soma 53 anos de atuação na conexão entre corretores e seguradoras.
Um dos principais desafios enfrentados por Jardim foi conduzir a sucessão e atualizar a estrutura de trabalho sem comprometer aquilo que já funcionava. A resposta incluiu o desenvolvimento de um software próprio de gestão, criado para atender às necessidades específicas das assessorias, que nem sempre encontram ferramentas adequadas às suas operações.
“Porque hoje existe software para corretor, para seguradora, mas não existe para assessoria. Os colegas que bem sabem, é a velha planilha de Excel. E ela me tirava muito tempo, e a gente tinha que otimizar tempo”, explicou Jardim.
Com a solução, a empresa passou a acompanhar informações sobre carteiras, composição dos negócios e sinistralidade com maior agilidade. Jardim ressaltou, porém, que a tecnologia precisa estar acompanhada de uma equipe preparada para atender às demandas comerciais e operacionais dos corretores.
O executivo também atribuiu parte de sua formação profissional a pessoas que compartilharam conhecimento ao longo da carreira, entre elas Fernando Guerra e seu pai. Para ele, a evolução da empresa dependeu tanto da capacidade de reconhecer novas possibilidades quanto do aprendizado construído nas relações profissionais.
Ao encerrar o painel, os participantes reforçaram que a tecnologia deixou de ser uma escolha distante para se tornar parte da estratégia das corretoras. Goi recomendou que os profissionais avaliem como incorporar recursos tecnológicos à própria realidade, seja por meio de fornecedores especializados, seja com o desenvolvimento de soluções internas.
Jardim destacou a importância de processos bem definidos e equipes treinadas, além da confiança nas pessoas que fazem a operação acontecer. Patzlaff compartilhou como exemplo o investimento em internet via satélite para manter a comunicação com clientes durante viagens, mesmo antes de a solução se tornar mais acessível no Brasil. A experiência, segundo ele, mostrou que avaliar uma inovação com antecedência pode permitir que a empresa aproveite seus benefícios antes da concorrência.
Romani concluiu que empresas de diferentes portes enfrentam dúvidas semelhantes sobre investimentos, orçamento e escolha das tecnologias. Para o executivo, criatividade, priorização e disposição para testar caminhos são essenciais diante de um mercado em constante mudança.
Os cases apresentados mostraram que o crescimento pode partir de diferentes decisões, da abertura de novos canais à melhoria de processos e à adoção de tecnologia. Em comum, as experiências evidenciaram a importância de reconhecer os desafios da própria operação, preparar as equipes e transformar ideias em iniciativas concretas.
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